quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

GABRIEL O PENSADOR

 



O carioca Gabriel Contino é conhecido popularmente como “Gabriel, O Pensador”. Ele é compositor, rapper, escritor, empresário.  No cenário musical, fez letras com ironias ácidas. Os governantes, o sistema educacional, a violência, a desigualdade social, a precariedade da saúde pública, a corrupção, o fanatismo religioso, a prostituição, dentre outros foram alvos de críticas do Pensador... Destaque para “Até Quando?”, “2345meia78”, “Cachimbo Da Paz”, “Tô Feliz (Matei O Presidente)”, “Muito Orgulho, Meu Pai”, “Surfista Solitário”, “Fé Na Luta”, “175 Nada Especial” etc. No ano de 1993, Gabriel lançou o rapper “175 Nada Especial”. Naquela época, o Brasil enfrentou alta taxa inflacionária na economia. A pobreza extrema atrelada à fome, o desamparo e a desconsideração dos políticos foram fatores relevantes para o elevado custo de vida da população brasileira. Diante deste contexto, O Pensador não enfatizou uma adversidade particular. Todavia, mencionou as carências gerais das zonas urbanas. As dificuldades das grandes metrópoles nacionais  eram frequentes, faziam parte da realidade diária. Enfim, lançada em 1993, “175 Nada Especial”, ainda continua atual, em 2023.

Sérgio Lopes Jornalista e Professor

E aí, pensador?!
Fala, tudo bem?!
Tá esperando que ônibus aí?
175
Ih! Corre, que tá saindo um ali agora
Falou, então! (Valeu!)
Mais um dia, mais um ônibus que eu peguei no Rio
Um ônibus tranquilo, estava vazio
A cidade engarrafada, como não podia deixar de ser
Viagem demorada, o que fazer?
Sem nenhuma mulher por perto pra bater um papo esperto
Resolvi escrever um rap a mais
Mas não estou bem certo sobre o quê eu vou rimar
Diz aí, trocador? (Ah, sei lá!)
Então eu vou no instinto
Pego um papel e vamo' vê o quê que dá
Foi nesse instante em que eu olhei pra janela
E que susto eu levei
Era ela, a inflação estampada na vitrine
Atingiu meu coração e deu vontade de partir pro crime
Porque o que eu quero comprar já não dá mais
A não ser que eu faça como fez o Ferrabrás (quem?)
Então eu tento esquecer, continuar a rimar
Mas o que eu vejo do outro lado é duro de acreditar
Mas é real, e a realidade dói demais
São dois mendigos se matando pelos restos mortais
De um cachorro qualquer que foi atropelado
E vai virar rango, e se der, talvez seja assado
(Hmm os nojentos gostam disso?)
Não, arrombado
Aquilo é um ser humano que chamaram de descamisado
Um desesperado, um brasileiro como eu
Que deve sempre perguntar: Será que existe mesmo Deus?
Não é o Pensador que vai tentar responder
Eu continuo rimando, tentando esquecer
Porque esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central
Mas esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central
E de repente, o ônibus começou a encher
Entrou mais gente, houve um tumulto
Alguém gritou e eu olhei pra ver
Quê que é isso? Quê que tá pegando? Quê que tá havendo?
(É um assalto, malandro!)
(Será que você ainda não tá percebendo?)
O desespero do trabalhador começou
E eu também tentava esconder meu dinheiro quando alguém falou
(Libera esse aí que é o Pensador, mané!)
Mas eles eram meus fãs, então levaram meu boné
(Autografado né, Pensador, se liga!)
(Calma!)
Alguns acharam que eu era cúmplice
Quase deu briga
Mas a viagem prosseguiu e os ladrões desceram
E aí a raiva que subiu na cabeça dos passageiros
E o mais injuriado era um bigodudo
Que tinha ganhado o salário e (eles levaram tudo)
Entraram dois PMs pela porta da frente
Estufando o peito e olhando pra gente
Impondo respeito
Mas os ladrões já tavam longe, num tinha mais jeito
Pra priorar levaram o bigodudo como suspeito
Ele era preto...
Coisas desse tipo é difícil esquecer
Mas eu vou continuar porque eu já disse a você que...
Esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central
Mas esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central
Agora estamos passando pela praia de Copacabana
Travestis e prostitutas se acabando por grana
E os gringos vão achando aquilo tudo bacana
(O Brasil é um paraíso! As mulheres são boas de cama!)
Ô gringo, não força, deixa de ser imbecil
Você que vem lá de fora quer entender do Brasil
Hã... O Brasil é um paraíso
É mole? E o inferno é onde?!
(Peraí, Pensador)
E por falar em paraíso, olha que loucura
Subiu no coletivo uma estranhíssima figura
Com uma bíblia na mão e uma cara de débil mental
Pregando a enganação da Igreja Universal
Ou será que era alguma outra igreja dessas?
Ah, num faz mal
Igreja de enganar otário é tudo igual!
E o coitado foi soltando aquele papo de crente
E eu rezando: Deus, me dê paciência!
Mas o pentelho desceu pra alegria da gente
E na saída do ônibus, sofreu um acidente
Se distraiu e foi atropelado por um caminhão
Morreu esmagado com a bíblia na mão
É, morreu, melhor do que viver nessa ilusão
Num queria Deus? Foi pro céu então
(Num sei não hein...)
Enquanto todos se benziam com pena do crente
Eu fui rimando, bola pra frente
Porque esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central
Porque esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central
E eu percebi que o trocador ficou fazendo careta
Pr'um coroa que passou por debaixo da roleta
Era um senhor de óculos, barba branca...
Ei, Peraí! Ei professor, quê que o senhor tá fazendo aqui?
Quê que houve? Foi assaltado? Perdeu o dinheiro?
(Hmm... Sabe... Sabe o quê que é? Gastei o salário inteiro!)
HmHm! Mudei de assunto, ele já tava encabulado
No meio do mês o salário dele já tinha acabado
Era o meu ex-professor da escola (coitado!)
Tá fudido e mal pago, daqui a pouco tá pedindo esmola
Ele é um mestre, um baú de sabedoria
E esse não é o valor que um professor merecia
Profissional de primeira importância pro nosso futuro
Ninguém mais quer ser professor pra num viver duro
E ele desceu em outra escola pra dar mais aula
(É que eu trabalho nos três turnos)
(Chego em casa e ainda corrijo prova)
Tchau professor! (Tchau Pensador!)
Desceu mais um trabalhador que tá numa de horror
Mas esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central
Mas esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central
E nós agora estamos passando pelo bairro de São Conrado
E como o tempo tá fechando eu tô ficando preocupado
Ih! Choveu! Pronto, tudo alagado
Uns vão nadando, outros morrendo afogados
E enquanto na favela tem barraco caindo
Não é que passa o Prefeito num iate sorrindo
E se o nosso ex-presidente estivesse aqui
Ele estaria certamente num belíssimo jet-ski
Mas como nós não temos embarcação pra todo mundo
Essa triste situação tá parecendo o fim do mundo
Pra quem tá de carro, pra quem tá de ônibus
Nessa Rio-Babilônia, no Brasil do abandono
E enquanto os governantes vão boiando sorridentes
Vamo' remando, bola pra frente
Porque esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central
Mas esse rap não é sobre nada especial
É o rap do 175 que eu peguei na central
E o pior de tudo-tudo é que nessa grande viagem
Nada-nada disso do que aconteceu foi novidade
E as autoridades estão defecando
Pro que acontece ao cidadão brasileiro no seu cotidiano
Porque pra eles isso não é nada especial
No cu dos outros é refresco, num faz mal
E fecham os olhos pro que até cego já viu
O revoltante retrato da vida urbana no Brasil
E eu não me refiro ao 175 ou qualquer linha da central
Eu tô falando do dia a dia
A qualquer hora, em qualquer local
Porque esse rap não é sobre nada especial


terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Liberdade ainda que tardia

 

Belo Horizonte, na década de 1960, no bairro Santa Tereza, as esquinas das ruas Divinópolis e Paraisópolis reuniam músicos. Eles tocaram e cantaram a mistura de ritmos: rock, jazz, bossa nova, música folclórica. Milton Nascimento, Márcio Borges, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Tavinho Moura, Murilo Antunes, Flávio Venturini, Lô Borges, Beto Guedes, Wagner Tiso, Nivaldo Ornelas, Toninho Horta, Nelson Ângelo, Novelli formaram o Clube da Esquina. Em 1972, Milton Nascimento reuniu os amigos e lançou o álbum duplo “Clube da Esquina”. O disco foi considerado pela maior parte da crítica, uma nova musicalidade e um divisor de água no cenário fonográfico do século XX. O lançamento dos mineiros causou polêmicas e apreciações da mídia, o LP não apresentou nome e foto dos intérpretes das canções... As misturas dos vários ritmos, as composições vocais e instrumentais agradaram aos críticos apurados, sobretudo, os de jazz. Muitos julgaram o Clube da Esquina superior ao Tropicalismo no que se refere à qualidade musical. Todavia, uma parte considerável da imprensa do eixo Rio-São Paulo sempre deu mais espaço para outros movimentos musicais: Tropicalismo, Bossa Nova, MPB (Música Popular Brasileira). Em 2022, o lançamento do álbum “Clube da Esquina” completou 50 anos e foi eleito o melhor disco brasileiro de todos os tempos. Segundo Francisco Fernandes Ladeira no site https://www.otempo.com.br/opiniao/artigos/reparacao-historica-ao-clube-da-esquina, a escolha foi realizada por 162 especialistas em música consultados pelo podcast Discoteca Básica. O Clube da Esquina como “melhor disco brasileiro de todos os tempos” simboliza bem esse processo de descobrimento da música mineira por indivíduos de diferentes gerações e lugares. Ainda de acordo com Ladeira, uma reparação histórica a uma obra que não foi devidamente valorizada durante décadas (coincidentemente no ano de seu cinquentenário). A turma de Santa Tereza está comemorando a conquista. Enfim, o reconhecimento do Clube da Esquina significa o ponto de amplitude e habilidade de uma obra musical de Minas Gerais para o mundo.

Sérgio Lopes, Jornalista, professor, especialista em TV, Cinema e Mídias Digitais e em Letras (Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa e Inglesa)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

A Matriarca Manoela

 

Minha amada e querida Dona Manoela foi uma brilhante mulher, nunca fugiu das responsabilidades e sempre colocou a felicidade (do marido, dos filhos, dos netos, dos bisnetos, dos genros e das noras) em primeiro lugar. Nesse dia, ela merece todos as homenagens e reconhecimento. Gostaria de aproveitar a oportunidade para falar um pouco da minha vó Manela. No dia 13 de dezembro de 1927, nasceu no Distrito de Santa Barbara, em São João Nepomuceno (MG), uma linda garotinha chamada Manoela Rodrigues de Souza. Era filha de Virgílio Goncalves (in memorian) e Alzira Rosa de Souza (in memorian). Manoela teve quarto irmãos que já faleceram: (Percília, Maria, Sebastiana e Dorfílio).  Em julho de 1944, aos dezesseis anos, Manoela casou se com Sebastião Rodrigues de Souza (21 anos). O jovem casal foi morar na cidade de Coronel Pacheco (MG)…  Em 1946, nasceu o primeiro filho (Sebastião Rodrigues de Souza Filho – in memorian). Depois do nascimento do pequeno Tiãozinho, a família Rodrigues cresceu… Dona Manoela e o senhor Sebastião tiveram mais 11 filhos (Antônio, Maria José – in memorian, Maria de Lurdes in memorian, Maria Célia in memorian, José Geraldo, Jorge, Elio, Edmar, Walto in memorian, Rogério, Sandra) e ajudaram na criação e educação do sobrinho do senhor Sebastião (Celso Rodrigues). Nas décadas de (1940, 1950, 1960, 1970), a vida era muito difícil para as pessoas que moravam nas áreas rurais. Grande parte das famílias trabalhavam nas fazendas (12 horas diárias), eram exploradas pelos fazendeiros e recebiam baixos salários. Os filhos dos empregados das fazendas não tinham oportunidade de estudar e eram “obrigados”  ajudar os pais no trabalho rural… Diante desta triste realidade, o senhor Sebastião e a dona Manoela trabalharam pesado na roça. Plantaram, colheram; criaram (porcos e galinhas); cuidaram dos gados… Infelizmente, os filhos da família Rodrigues não tiveram condições de completar os estudos. Eles começaram a trabalhar com o objetivo de contribuir para o sustento da família. O primogênito Sebastião Rodrigues de Souza Filho e Antônio Rodrigues começaram a trabalhar bem jovens. Entre 9 e 10 anos, as crianças da Dona Manoela trabalharam no curral exercendo o ofício de “Campeiro”. Além disso, os meninos ajudaram os pais nas plantações de (milho, arroz, feijão). Os outros irmãos (José Geraldo, Jorge, Elio, Edmar, Walto) seguiram o mesmo caminho de (Tiãozinho e Antônio). A irmã Maria Célia não trabalhou na roca, mas ajudou muito a mamãe nos serviços domésticos e cuidou dos irmão mais novos (Sandra e Rogério). A vida não estava fácil para a família Rodrigues. Eles trabalhavam demais e o dinheiro era curto. Em 1965, Sebastião Rodrigues de Souza Filho abandonou o trabalho rural e foi tentar a sorte em Petrópolis (RJ). Ficou por lá por uns tempos, e casou se com a senhora Nilza… Antônio Rodrigues deixou o trabalho do campo e foi para Juiz de Fora tentar novas oportunidades. José Geraldo foi também para Petrópolis e depois foi para Juiz Fora. Os outros filhos (Jorge, Elio, Edmar, Walto) partiram para Juiz de Fora. A casa do (senhor Sebastião e dona Manoela) ficou vazia. A filha Célia junto com a mamãe Manoela ajudaram os irmãos (Jorge, Elio, Edmar, Walto). Elas lavavam as roupas e mandavam comida diariamente pelo ônibus (Bassamar) para os meninos que estavam morando e trabalhando  em Juiz de Fora. Em 1977, a filha Maria Célia casou se com o Murilo e foi morar em Coronel Pacheco… Em 1979, O senhor Sebastião Rodrigues e a senhora Manoela junto com os dois filhos mais novos (Rogério e Sandra) deixaram a roça e mudaram para cidade. A família Rodrigues foi tentar ganhar a vida em Juiz de Fora.   Alugou um casa no bairro Manoel Honório e os filhos que já estavam trabalhando lá (Jorge, Elio, Edmar, Walto) também foram morar junto com os pais. O patriarca Sebastião Rodrigues arranjou emprego no Clube D. Pedro II. Nessa nova fase da vida,  Dona Manoela e senhor Sebastião moraram em vários bairros de Juiz de Fora. Manoela sempre esteve ao lado do marido e o acompanhou até o seu leito de morte…. Dona Manoela  não desistiu da vida e prosseguiu seu caminho com muita esperança e fé em Deus. Dona Manoela tornou a matriarca da família Rodrigues. O sábio francês Lavoisier do século XVIII , deixou uma frase incontestável para a humanidade : “na natureza nada se perde, tudo se transforma”, ou seja, tudo se desorganiza para se organizar novamente, de uma forma mais perfeita.  A morte não existe, hoje, Manoela faz sua passagem para outra dimensão…  Dona Manoela é vó de 20 netos e bisavó de 13. Dona Manoela é querida pelos genros e pelas noras. Dona Manoela é admirada por todos os amigos que estão aqui neste momento e também pelos que não compareceram. Dona Manoela é amor. Dona Manoela é uma força que motiva as pessoas. Dona Manoela é heroína. Dona Manoela e amada por todos. Dona Manoela superou os obstáculos da vida. Dona Manoela é a experiência . Dona Manoela é educação. Dona Manoela é superação. Dona Manoela é equilíbrio.  Dona Manoela é guerreira, corajosa, uma força da natureza.. É essência que ilumina, que orienta. É palavra de conforto , é  sorriso , é exemplo de vida,  é autoridade que educa. Dona Manoela é um ser único, na maioria das vezes esquece ou negligência seus próprios interesses em favor de outros. O coração de Dona Manoela é superior ao universo, e nele vive um amor (verdadeiro, incondicional e infinito). Sorrisos e lágrimas alternam em seu rosto consumido de preocupação constante. Contudo, a recompensa está garantida através do amor e reconhecimento dos seus entes queridos, e da certeza que  fez um trabalho maravilhoso! Dona Manoela viveu  noventa e cinco anos. O seu coração vai pulsar mais forte, seus olhos vão brilhar, os seus lábios vão sorrir. Talvez, essa seja a forma mais simplória para que a senhora Manoela seja sempre seguida como exemplo para todos. Quero colocar dentro desta singela homenagem todos os corações que te apreciam, toda a paz e luz que a senhora merece. Que a felicidade te acompanhe sempre e que ela seja ainda maior do que já é, pois é maravilhoso o bem que você planta ao longo do seu caminho. Tenha certeza que na vida, no tempo e na eternidade Deus descreve sorrindo tudo isso que tentei expressar.  São os mais sinceros sentimentos do seu neto Serginho . Vá em paz! Vá com os anjos! Obrigado por tudo, eu te amo, nós te amamos.

Jornalista e Professor Sérgio Lopes

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Clarice Lispector

A ucraniana Clarice Lispector veio morar no Brasil, no ano de 1921, viveu nas cidades de Maceió, Recife e Rio de Janeiro. Lispector estudou várias línguas, fez aula de piano, foi uma estudante exemplar e demonstrou talento na arte de produzir poemas. A escritora teve êxito na terceira geração modernista brasileira. Clarice Lispector faleceu no ano de 1977, entretanto, deixou   poemas importantes como: “Sonhe”, “Minha alma tem o peso da luz”, “Sou”, “A Lucidez Perigosa”, “Eu”, “Solidão”, “Nossa Truculência”, “Passional”, “Mão”, “Meu Deus, me dê coragem”, dentre outros.

Meu Deus, me dê a coragem

Meu Deus, me dê a coragem

de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,

todos vazios de Tua presença.

Me dê a coragem de considerar esse vazio

como uma plenitude.

Faça com que eu seja a Tua amante humilde,

entrelaçada a Ti em êxtase.

Faça com que eu possa falar

com este vazio tremendo

e receber como resposta

o amor materno que nutre e embala.

Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,

sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.

Faça com que a solidão não me destrua.

Faça com que minha solidão me sirva de companhia.

Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.

Faça com que eu saiba ficar com o nada

e mesmo assim me sentir

como se estivesse plena de tudo.

Receba em teus braços

o meu pecado de pensar.

Clarice Lispector

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Viva a Capital dos Mineiros!

Segundo o site https://www.em.com.br/app/noticia, inaugurada em 12 de dezembro de 1897, com o nome de Cidade de Minas, e batizada Belo Horizonte – na grafia antiga, Bello Horisonte –, em 11 de agosto de 1901. A capital dos bares é chamada carinhosamente de beagá, bêlo, BH. Conforme projeção realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada no ano de 2021, Belo Horizonte tem 2.530.701 habitantes. A principal cidade de Minas Gerais passou por processo crescente de desenvolvimento econômico e cultural. Na década de 1920, os jovens poetas (Carlos Drummond de Andrade, Gustavo Capanema, Emílio Moura, Pedro Nava) passaram pela Rua da Bahia... Lançaram uma revista e colocaram o nome de Belo Horizonte na vanguarda do modernismo paulista e carioca. Posteriormente, novos nomes surgiram no cenário literário (Hélio Peregrino, Oto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino). A capital das Minas Gerais foi berço para músicos da cultura nacional, e até para alguns com fama internacional... No meio musical, destaque para Milton Nascimento e o Clube da Esquina (Lô Borges, Márcio Borges, Wagner Tiso, Toninho Horta, Beto Guedes, Fernando Brant, Flávio Venturini), 14 Bis, Sepultura, Skank, Jota Quest, Pato Fu, Tianastácia. Outros ícones da cena cultural de beagá são: Companhia Giramundo de Bonecos, Grupo Corpo, Grupo Galpão, Escola Guignard.... Circuito Cultural Praça da Liberdade, Mercado Central, Museu de Artes e Ofício, Praça do Papa, Feira Hippie da Afonso Pena, Mineirão: jogos do Cruzeiro e do Atlético, dentre outros eventos são atrações de bêlo. A gastronomia de BH é boa demais (feijão tropeiro, pão de queijo, tutu de feijão, frango com quiabo, leitão à pururuca, goiabada cascão). Os belo-horizontinos têm saneamento, transporte, energia e telecomunicação. As faculdades e as universidades estão estabelecidas na cidade. Beagá oferece amplos serviços, seja de saúde, lazer, compras, educação, arte, cultura, entretenimento... Por fim, parabéns Belo Horizonte, por levar tanta história, costume, hábito, tradição, lenda, prática, beleza, encantamento, magia, poesia, atrativo, charme, sedução. Parabéns BH, por acolher tão bem as pessoas, por respeitar as diferenças e por ter grandes talentos da cultura brasileira e mundial.

Sérgio Lopes, Jornalista, professor, especialista em TV, Cinema e Mídias Digitais e em Letras (Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa e Inglesa)


quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Modernizar o passado é uma evolução musical

Na última década do segundo milênio, Recife passou por crise no cenário cultural e pobreza extrema. Chico Science e a banda Nação Zumbi, Fred Zero Quatro e a banda Mundo Livre S/A, Mabuse, Héder Aragão, Renato L e outros artistas pernambucanos foram responsáveis pelo movimento de contracultura “Mangue Beat”, no ano de 1991. A proposta foi estabelecer inovação cultural com o surgimento de ritmos, que combinam componentes da cultura pop com a cultural tradicional. As manifestações folclóricas como o maracatu e a ciranda foram utilizadas para produzir os passos do movimento, ademais, apontou os problemas da capital pernambucana. Conforme o site https://mundoeducacao.uol.com.br/artes, assim, estilos e ritmos como o maracatu e o coco foram incorporados ao hip-hop e rock. Essa mistura de elementos tradicionais e modernos foram a forma encontrada pelos representantes do Mangue Beat para valorizar a cultura regional. Nos anos noventa, a cena artístico-musical do “Mangue Beat” contribuiu para dar visibilidade às pessoas que viviam na periferia pernambucana, na capital do abandono, da miséria, da desigualdade, da violência. Chico Science, Fred Zero e outros integrantes mudaram a concepção de muitas pessoas em relação ao subúrbio da selvageria e da indiferença...  A turma do mangue mostrou o talento dos menos favorecidos economicamente, as classes baixas da sociedade recifense podiam produzir arte e cultura de qualidade... O mangue excedeu as extremidades da cidade de Recife e se espalhou por todo país. O movimento pernambucano foi, é e sempre será marcado na arte e na cultura brasileira. Ele pode ser considerado a atribuição dos festejos gerais da região nordeste. Chico Science e seus amigos aproveitaram as peculiaridades das influências nordestinas passadas de geração em geração, para constituir a sustentação cultural. Por fim, de acordo com o relato de Osvaldo Meira Trigueiro, no artigo Espetacularização das culturas populares ou produtos culturais folkmidiáticos, “as manifestações culturais estão em constante processo de mudança de seus significados e isso se liga a globalização, pois com ela, não existe uma uniformidade cultural, mas sim uma diversidade de culturas”.

Sérgio Lopes, Jornalista, professor, especialista em TV, Cinema e Mídias Digitais e em Letras (Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa e Inglesa)

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

O Navio Negreiro

 

Antônio Frederico de Castro Alves é o famoso Castro Alves, o poeta dos escravos. É considerado por muitos, o escritor responsável por uma poesia social. Os poetas das gerações românticas anteriores defenderam uma ótica idealizada e ufanista do Brasil. Diferente deles... Castro Alves mostrou a crueldade da escravidão dos negros, a prepotência, a violência, o abuso, a arbitrariedade e a incompreensão da população brasileira... Alguns exemplos de obras relevantes são: "As espumas flutuantes (1870)"; "A cachoeira de Paulo Afonso (1876)"; "Os escravos (1883)"; "Obras completas (1921)" em que consta o livro inédito Hinos do Equador. Por fim, o melhor do poeta romântico “O navio negreiro”, é parte da obra "Os escravos (1883)".  É uma das mais categóricas considerações realizadas na literatura brasileira, em relação à vivência de um país, que foi o último, a decretar o fim da escravidão.

Sérgio Lopes (Jornalista, professor, especialista em (TV, Cinema e Mídias Digitais) e em Letras (Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa e Inglesa

O Navio Negreiro (Castro Alves)

I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço

Brinca o luar — dourada borboleta;

E as vagas após ele correm... cansam

Como turba de infantes inquieta.

 

'Stamos em pleno mar... Do firmamento

Os astros saltam como espumas de ouro...

O mar em troca acende as ardentias,

— Constelações do líquido tesouro...

 

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos

Ali se estreitam num abraço insano,

Azuis, dourados, plácidos, sublimes...

Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

 

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas

Ao quente arfar das virações marinhas,

Veleiro brigue corre à flor dos mares,

Como roçam na vaga as andorinhas...

 

Donde vem? onde vai? Das naus errantes

Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?

Neste saara os corcéis o pó levantam,

Galopam, voam, mas não deixam traço.

 

Bem feliz quem ali pode nest'hora

Sentir deste painel a majestade!

Embaixo — o mar em cima — o firmamento...

E no mar e no céu — a imensidade!

 

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!

Que música suave ao longe soa!

Meu Deus! como é sublime um canto ardente

Pelas vagas sem fim boiando à toa!

 

Homens do mar! ó rudes marinheiros,

Tostados pelo sol dos quatro mundos!

Crianças que a procela acalentara

No berço destes pélagos profundos!

 

Esperai! esperai! deixai que eu beba

Esta selvagem, livre poesia

Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,

E o vento, que nas cordas assobia...

..........................................................

 

Por que foges assim, barco ligeiro?

Por que foges do pávido poeta?

Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira

Que semelha no mar — doudo cometa!

 

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,

Tu que dormes das nuvens entre as gazas,

Sacode as penas, Leviathan do espaço,

Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

 

 

II

 

 

Que importa do nauta o berço,

Donde é filho, qual seu lar?

Ama a cadência do verso

Que lhe ensina o velho mar!

Cantai! que a morte é divina!

Resvala o brigue à bolina

Como golfinho veloz.

Presa ao mastro da mezena

Saudosa bandeira acena

As vagas que deixa após.

 

Do Espanhol as cantilenas

Requebradas de langor,

Lembram as moças morenas,

As andaluzas em flor!

Da Itália o filho indolente

Canta Veneza dormente,

— Terra de amor e traição,

Ou do golfo no regaço

Relembra os versos de Tasso,

Junto às lavas do vulcão!

 

O Inglês — marinheiro frio,

Que ao nascer no mar se achou,

(Porque a Inglaterra é um navio,

Que Deus na Mancha ancorou),

Rijo entoa pátrias glórias,

Lembrando, orgulhoso, histórias

De Nelson e de Aboukir.. .

O Francês — predestinado —

Canta os louros do passado

E os loureiros do porvir!

 

Os marinheiros Helenos,

Que a vaga jônia criou,

Belos piratas morenos

Do mar que Ulisses cortou,

Homens que Fídias talhara,

Vão cantando em noite clara

Versos que Homero gemeu ...

Nautas de todas as plagas,

Vós sabeis achar nas vagas

As melodias do céu! ...

 

 

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!

Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano

Como o teu mergulhar no brigue voador!

Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!

É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...

Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho

Que das luzernas avermelha o brilho.

Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros... estalar de açoite...

Legiões de homens negros como a noite,

Horrendos a dançar...

 

Negras mulheres, suspendendo às tetas

Magras crianças, cujas bocas pretas

Rega o sangue das mães:

Outras moças, mas nuas e espantadas,

No turbilhão de espectros arrastadas,

Em ânsia e mágoa vãs!

 

E ri-se a orquestra irônica, estridente...

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais ...

Se o velho arqueja, se no chão resvala,

Ouvem-se gritos... o chicote estala.

E voam mais e mais...

 

Presa nos elos de uma só cadeia,

A multidão faminta cambaleia,

E chora e dança ali!

Um de raiva delira, outro enlouquece,

Outro, que martírios embrutece,

Cantando, geme e ri!

 

No entanto o capitão manda a manobra,

E após fitando o céu que se desdobra,

Tão puro sobre o mar,

Diz do fumo entre os densos nevoeiros:

"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!

Fazei-os mais dançar!..."

 

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais...

Qual um sonho dantesco as sombras voam!...

Gritos, ais, maldições, preces ressoam!

E ri-se Satanás!...

V

Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade

Tanto horror perante os céus?!

Ó mar, por que não apagas

Co'a esponja de tuas vagas

De teu manto este borrão?...

Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão!

 

Quem são estes desgraçados

Que não encontram em vós

Mais que o rir calmo da turba

Que excita a fúria do algoz?

Quem são? Se a estrela se cala,

Se a vaga à pressa resvala

Como um cúmplice fugaz,

Perante a noite confusa...

Dize-o tu, severa Musa,

Musa libérrima, audaz!...

 

São os filhos do deserto,

Onde a terra esposa a luz.

Onde vive em campo aberto

A tribo dos homens nus...

São os guerreiros ousados

Que com os tigres mosqueados

Combatem na solidão.

Ontem simples, fortes, bravos.

Hoje míseros escravos,

Sem luz, sem ar, sem razão. . .

 

São mulheres desgraçadas,

Como Agar o foi também.

Que sedentas, alquebradas,

De longe... bem longe vêm...

Trazendo com tíbios passos,

Filhos e algemas nos braços,

N'alma — lágrimas e fel...

Como Agar sofrendo tanto,

Que nem o leite de pranto

Têm que dar para Ismael.

 

Lá nas areias infindas,

Das palmeiras no país,

Nasceram crianças lindas,

Viveram moças gentis...

Passa um dia a caravana,

Quando a virgem na cabana

Cisma da noite nos véus ...

... Adeus, ó choça do monte,

... Adeus, palmeiras da fonte!...

... Adeus, amores... adeus!...

 

Depois, o areal extenso...

Depois, o oceano de pó.

Depois no horizonte imenso

Desertos... desertos só...

E a fome, o cansaço, a sede...

Ai! quanto infeliz que cede,

E cai p'ra não mais s'erguer!...

Vaga um lugar na cadeia,

Mas o chacal sobre a areia

Acha um corpo que roer.

 

Ontem a Serra Leoa,

A guerra, a caça ao leão,

O sono dormido à toa

Sob as tendas d'amplidão!

Hoje... o porão negro, fundo,

Infecto, apertado, imundo,

Tendo a peste por jaguar...

E o sono sempre cortado

Pelo arranco de um finado,

E o baque de um corpo ao mar...

 

Ontem plena liberdade,

A vontade por poder...

Hoje... cúm'lo de maldade,

Nem são livres p'ra morrer. .

Prende-os a mesma corrente

— Férrea, lúgubre serpente —

Nas roscas da escravidão.

E assim zombando da morte,

Dança a lúgubre coorte

Ao som do açoute... Irrisão!...

 

Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus,

Se eu deliro... ou se é verdade

Tanto horror perante os céus?!...

Ó mar, por que não apagas

Co'a esponja de tuas vagas

Do teu manto este borrão?

Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão! ...

 

VI

Existe um povo que a bandeira empresta

P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!...

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,

Que impudente na gávea tripudia?

Silêncio. Musa... chora, e chora tanto

Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

 

Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e balança,

Estandarte que a luz do sol encerra

E as promessas divinas da esperança...

Tu que, da liberdade após a guerra,

Foste hasteado dos heróis na lança

Antes te houvessem roto na batalha,

Que servires a um povo de mortalha!...

 

Fatalidade atroz que a mente esmaga!

Extingue nesta hora o brigue imundo

O trilho que Colombo abriu nas vagas,

Como um íris no pélago profundo!

Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!

Andrada! arranca esse pendão dos ares!

Colombo! fecha a porta dos teus mares!