sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Olavo Bilac 

 

 

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

Ferreira Gullar


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Seiscentos e Sessenta e Seis

 

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…

Quando se vê, já é 6ª-feira…

Quando se vê, passaram 60 anos…

Agora, é tarde demais para ser reprovado…

E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,

eu nem olhava o relógio

seguia sempre, sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

(Mario Quintana )

domingo, 26 de setembro de 2021

Os justos e honestos sofrem

 

Muitos trabalhadores são justos, honestos, dedicados, flexíveis, compreensivos, comprometidos, solidários, honrados, e até bondosos. Eles passam anos de suas vidas, colaborando com o progresso e o desenvolvimento de (Instituições de Ensino, Empresas, Hospitais, Indústrias, Comércios...). Cumprem todas as obrigações profissionais e não recebem salários compatíveis com suas funções. Acima de tudo, abrem mão da família do lazer e da cultura. Tanto no setor público, quanto no setor privado, vários homens íntegros estão adoecendo e sofrendo: arbitrariedade, desigualdade, iniquidade, parcialidade, ilegalidade, desrespeito, tendenciosidade... A honra e o caráter não aceitam fraude, improbidade, falsificação, insinceridade, logro, má-fé, mentira, perfídia, traição. A boa reputação, a dignidade, a honestidade não compactuam com desonestidade, assédio e meias verdades. A moral, a generosidade, a gratidão nunca combinam com acordos espúrios, negociatas ilegais e maracutaias... Quem já sentiu o dissabor da injustiça? Infelizmente, ela atinge o homem honesto. Nos dias atuais, algum pai de família está chorando de tristeza. Ele foi vítima de uma daquelas surpresas desagradáveis no serviço. Ele perdeu o emprego? Ele foi traído por um colega de trabalho? A versão de um acontecimento é algo bastante relevante e deve ser explorado por várias concepções. Evitando com que a credibilidade do trabalhador fique “comprometida”, quando um determinado indivíduo expõe inadequadamente a respeito de situações que ocorreram ou foram comentadas por profissionais de uma empresa para outras pessoas, sobretudo, se nessa situação for a direção, a chefia imediata e até mesmo envolvendo outros cidadãos fora do ambiente de trabalho.  Muitos empregadores acreditam na fala de terceiros, a injustiça atinge o ápice e o meio profissional é deteriorado...  Em algumas situações, a Justiça do Brasil não ampara o colaborador honesto. Portanto, nunca podemos desistir. Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos (1801 a 1809) e o principal autor da declaração de independência dos Estados Unidos (04/07/1776), disse: “Quando a injustiça se torna a lei, a resistência passa a ser um dever”.

Sérgio Lopes (Jornalista, Professor e Especialista em TV, Cinema e Mídias Digitais)

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Clube da Esquina 2


Porque se chamava moço

Também se chamava estrada

Viagem de ventania

Nem lembra se olhou pra trás

Ao primeiro passo, aço, aço….

 

Porque se chamava homem

Também se chamavam sonhos

E sonhos não envelhecem

Em meio a tantos gases

lacrimogênios

Ficam calmos, calmos, calmos

 

E lá se vai mais um dia

 

E basta contar compasso

e basta contar consigo

Que a chama não tem pavio

De tudo se faz canção

E o coração

Na curva de um rio, rio…

 

E lá se vai mais um dia

 

E o Rio de asfalto e gente

Entorna pelas ladeiras

Entope o meio fio

Esquina mais de um milhão

Quero ver então a gente,

gente, gente…

Flávio Venturini

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Tecendo a Manhã.

"Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
 (a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão".
João Cabral de Melo Neto

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O trabalho análogo à escravidão no Brasil

 

O trabalho escravo durou mais de três séculos no nosso país. O Brasil foi a última nação ocidental a abolir a escravidão no mundo.  Contudo, o trabalho escravo ainda é marcante na atualidade... De acordo com informações recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT), estima que existam pelo menos 12,3 milhões de pessoas submetidas a trabalho forçado em todo o mundo, e no mínimo 1,3 milhão na América Latina. Estudos já identificaram 122 produtos fabricados com o uso de trabalho forçado ou infantil em 58 países diferentes.  Conforme a OIT, calculou em US$ 31,7 bilhões os lucros gerados pelo produto do trabalho escravo a cada ano, sendo que metade disso fica em países ricos, industrializados... Em consequência disso, milhões de pessoas vivem em circunstâncias humilhantes de trabalho. A  submissão por dívida, a ocupação coagida e até a jornada fatigante. Em síntese, Abraham Lincoln, o ex-presidente norte-americano  que libertou os  escravos dos Estados Unidos, disse: "Se a escravatura não é má, nada é mau”.

 Sérgio Lopes (Jornalista, Professor, Especialista em TV, Cinema e Mídias Digitais)