A figura do burro, animal da família dos equídeos,
observa o cérebro humano e lança a pergunta: como é que se usa isso? A cena
ironiza a distância entre possuir capacidade intelectual e, de fato,
utilizá-la. A ignorância ali não é zoológica; é humana. O cérebro não simboliza
conhecimento, no entanto potencial desperdiçado. Ter mente não garante
raciocínio; habilidade não exercida apodrece. A pergunta expõe o ponto crítico
da espécie: temos o recurso, faltaram preparo e disposição. A ignorância
contemporânea não nasce da escassez, porém da recusa em aprender. Pensar
incomoda; repetir tranquiliza. O burro trava, o humano empurra o pensamento
para fora. Entre sentir e pensar, escolhe a preguiça. O cérebro assiste ao
próprio desperdício, reduzido a ornamento de vaidade. O problema nunca foi a
falta de inteligência, mas o desprezo deliberado pelo pensar.
Sérgio Lopes Jornalista
Texto
publicado no Blog dos Letrados Desalienados
(blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de
resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo
Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e
liberdade.







