A banda
carioca Biquíni cantou Amanhã é outro dia. Porém, muitos moradores da Zona da
Mata Mineira (Juiz de Fora, Ubá, Matias Barbosa), o ontem ainda não terminou. A
chuva destruiu bens, vivências, memórias. E, em alguns casos, pessoas. A queda
de água acabou? Não sabemos, mas o prejuízo ficou. E o silêncio pesa mais,
porque nele, ninguém se importa. O que fazer quando a casa vira lama? Esperar. Quando
o pouco que havia some? Aceitar. Recomeçar não é escolha, é sentença. Do zero,
sem poesia, só desgaste, dor e dúvida. Enquanto isso, o discurso escorre,
fácil, inútil, tardio. A prevenção virou conversa fiada e não segura encosta, só
sustenta desculpa. A tragédia não é apenas da chuva, decorre do abandono que se
antecipa e se prolonga posteriormente. Contudo, em meio aos danos, observa-se a atuação
solidária entre as pessoas. É o vizinho que acolhe. É o desconhecido que
contribui. É a sociedade que se mobiliza quando o poder público falha. A
solidariedade mineira atua de forma discreta, mas ampara quem foi atingido. Não
resolve todos os problemas, mas reduz o impacto da dor. Porque amanhã é outro
dia. Mas, para quem perdeu tudo, o amanhã não traz esperança. Traz conta, barro
e ausência. E, como sempre, a reconstrução começa sem o Estado e termina com
ele pedindo crédito.
Sérgio Lopes Jornalista
Texto
publicado no Blog dos Letrados Desalienados
(blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de
resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo
Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e
liberdade.


