As
excentricidades do Brasil não tiram férias. Nos últimos dias de 2025, o delírio
coletivo teve nome, número e promessa: a Mega da Virada. O país parou.
Fantasiou riqueza. Apostou esperança. No dia 31, o sorteio simplesmente não
aconteceu. Vieram as suspeitas, os boatos e o velho teatro da desconfiança. Só
em 1º de janeiro surgiu o desfecho: seis apostas dividiram mais de um bilhão de
reais. A plateia, atrasada, aplaudiu mesmo assim. Pouco antes, em 21 de
dezembro, o verão havia estreado oficialmente. Chegou como sempre, calor
excessivo, chuvas desordenadas e cidades litorâneas superlotadas. Milhares
buscaram descanso... Encontraram outro tipo de pressão econômica, na praia, o sol
queima e o preço castiga. Seis pastéis por R$ 150. Batata frita por R$ 80. Água
a R$ 10. Cerveja a R$ 20. Não é cardápio; é pedágio. Comer e beber à beira-mar
deixou de ser lazer e passou a ser demonstração de renda. A justificativa é
conhecida: calor extremo, dificuldade logística, alta demanda. A verdade é mais
simples, quando a concorrência some, o abuso aparece. Quando a sede aperta, a
escolha desaparece. O consumidor não consome; se submete. No verão brasileiro,
o corpo sofre com o clima e o bolso com a esperteza. O abuso se repete, se
aceita e se normaliza. E a equação fecha sem erro, pouca oferta, necessidade
imediata e exploração bem calculada. O espetáculo muda de cenário, mas o
roteiro é o mesmo. Seja na promessa do prêmio bilionário ou na cerveja quente
da praia, alguém sempre paga mais caro pelo direito de sonhar ou apenas de
matar a sede.
Sérgio Lopes Jornalista
Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.
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