segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Verão à Venda

 


As excentricidades do Brasil não tiram férias. Nos últimos dias de 2025, o delírio coletivo teve nome, número e promessa: a Mega da Virada. O país parou. Fantasiou riqueza. Apostou esperança. No dia 31, o sorteio simplesmente não aconteceu. Vieram as suspeitas, os boatos e o velho teatro da desconfiança. Só em 1º de janeiro surgiu o desfecho: seis apostas dividiram mais de um bilhão de reais. A plateia, atrasada, aplaudiu mesmo assim. Pouco antes, em 21 de dezembro, o verão havia estreado oficialmente. Chegou como sempre, calor excessivo, chuvas desordenadas e cidades litorâneas superlotadas. Milhares buscaram descanso... Encontraram outro tipo de pressão econômica, na praia, o sol queima e o preço castiga. Seis pastéis por R$ 150. Batata frita por R$ 80. Água a R$ 10. Cerveja a R$ 20. Não é cardápio; é pedágio. Comer e beber à beira-mar deixou de ser lazer e passou a ser demonstração de renda. A justificativa é conhecida: calor extremo, dificuldade logística, alta demanda. A verdade é mais simples, quando a concorrência some, o abuso aparece. Quando a sede aperta, a escolha desaparece. O consumidor não consome; se submete. No verão brasileiro, o corpo sofre com o clima e o bolso com a esperteza. O abuso se repete, se aceita e se normaliza. E a equação fecha sem erro, pouca oferta, necessidade imediata e exploração bem calculada. O espetáculo muda de cenário, mas o roteiro é o mesmo. Seja na promessa do prêmio bilionário ou na cerveja quente da praia, alguém sempre paga mais caro pelo direito de sonhar ou apenas de matar a sede.

                                                    Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.


Nenhum comentário:

Postar um comentário