Há uma
tendência antiga, apresentada como sabedoria contemporânea, de encarar vínculos
humanos como um sistema de créditos e débitos afetivos, em que toda gentileza é
vista como troca e toda recusa como ofensa. Um sistema que parece coerente
quando parte de quem se entende como credor da vida alheia. A lógica é simples,
transformar favores em uma espécie de reserva de reciprocidade futura. Quando o
retorno falha, a compreensão cede lugar à indignação visível. O argumento da
“ingratidão” surge no momento em que a ajuda é tratada como troca esperada, um
conjunto de princípios aparentes, sustentado por memória seletiva e ego. Ajuda-se
em público, cobra-se em silêncio e reage-se em privado. Em geral, há uma
expectativa de retorno constante por gestos básicos de convivência, como se
cada ato gerasse uma dívida implícita. O que se apresenta como benefício não é
generosidade, é troca velada. Expectativas não assumidas, quando não atendidas,
geram ressentimento como reação previsível. No fundo, relações são tratadas
como planilha, cada gesto vira dívida, cada ausência, um calote emocional.
Sérgio
Lopes Jornalista
Texto
publicado no Blog dos Letrados Desalienados
(blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de
resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo
Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e
liberdade















