No
cenário político do Brasil, em quase todos os casos, os vínculos de amizade
autêntica são raridade quase folclórica. Com frequência, as relações sociais e
políticas se organizam em torno de interesses bem calculados e mecanismos
eficientes de influência. Basta o poder estar à mesa para surgir uma multidão
de aliados, elogios entusiasmados e fidelidades com prazo de validade
cuidadosamente escondido no rodapé. Perdido o poder, o roteiro muda com rapidez
surpreendente. O “amigo” desaparece, o telefone silencia e a consideração
evapora. A regra do jogo é simples e antiga, perdeu o cargo, ficou sem a
plateia. A gratidão entra em modo de amnésia seletiva, a memória encurta e o
bajulado de ontem passa a ser tratado como inconveniente de agenda. O retrato é
conhecido na política brasileira e também na política mineira. Muitas pessoas
acabam reduzidas a instrumentos descartáveis. Em vez de projeto coletivo,
constrói-se domínio; no lugar da confiança, instala-se a velha e disciplinada
submissão. E quem ainda acredita em amizade nesse ambiente logo descobre que,
ali, a ingenuidade costuma sair bem mais cara do que qualquer campanha
eleitoral. A engrenagem não cultiva sentimentalismo, recicla personagens com eficiência
admirável e segue funcionando à base de interesses, vaidades infladas e
ambições sempre bem abastecidas. Nesse jogo, vale quem manda. O cargo substitui
o caráter, a amizade dura pouco e a traição deixa de ser acidente para virar
método. Quando a serventia termina, o projeto de poder trata de arquivar o
personagem com a mesma frieza com que antes o aplaudia. Talvez esteja na hora
de parar de tratar políticos como heróis de novela e observá-los quando o poder
acaba. É justamente nesse momento, quando os holofotes se apagam e os cargos
mudam de dono, que se descobre quem tinha convicção e quem estava ali apenas
pelo cargo, pelos favores e pela luz conveniente da vitrine pública. A política
deveria servir ao público. Mas, na prática, muitas vezes virou território de
caça para oportunistas bem treinados. Enquanto o poder continuar sendo tratado
como troféu pessoal, e não como instrumento de serviço, a falsidade seguirá em alta,
e a tal “amizade” continuará sendo apenas mais uma peça descartável na engrenagem
do poder.
Sérgio Lopes Jornalista
Texto
publicado no Blog dos Letrados Desalienados
(blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de
resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues
Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.
