“Não é o
cargo que faz o líder, é a postura”. A frase é bonita no papel. Difícil é
sustentar fora dele. Cargo é elevador social, sobe rápido, faz barulho e
impressiona a vizinhança. Postura não, conduta é índole em pé, e isso não vem
no kit admissão nem no contracheque. Crachá abre porta, caráter sustenta teto,
o resto é altura sem base. Observe Jair Messias Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da
Silva. O cargo é o mesmo, a cadeira é a mesma, a faixa também. O que muda é a
forma de ocupar o espaço. O título diz “Presidente da República”, a liturgia
depende do temperamento. A grandeza? Essa
não consta no decreto de posse, e, curiosamente, nunca aparece no Diário
Oficial. No mundo corporativo, o
CEO de terno italiano palestra sobre “liderança humanizada” com microfone sem
fio e agenda cheia de aplausos. Entre o café e a sobremesa, dispara a demissão
em massa com a naturalidade de quem responde e-mail automático. No interior,
longe do palco e do filtro corporativo, a gerente anônima segura meta impraticável,
equipe exausta, crise permanente, sem hashtag, sem plateia, sem TED Talk. Um
coleciona cargo e selfie, a outra entrega resultado e assume a conta. Ele performa liderança, ela pratica. Na arte, alguns
não pedem licença, fazem acontecer. Taylor Swift (cantora pop americana)
regravou seu próprio catálogo e transformou contrato em troféu, sem esperar
autorização, assinou a própria história. Enquanto isso, muitos “diretores
criativos” vivem de reunião longa e ideia curta, chamando enrolação de
processo. Uns deixam legado, outros só ata. No fim, cargo é só moldura dourada,
bonita na vitrine, vazia no conteúdo. Obra? Nem sempre, às vezes, é só tela em
branco. Cargo? Embalagem premium para miolo vazio. Conteúdo? Edição limitada,
quando existe. Liderança não se mede pela sala cheia, mas pelo que sobra quando
o aplauso termina. Plateia cheia inflama ego; silêncio expõe caráter. O resto?
Só crachá turbinado com ego de balão, sobe rápido e estoura antes do café.
Sérgio Lopes Jornalista
Texto
publicado no Blog dos Letrados Desalienados
(blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de
resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo
Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e
liberdade.

