quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Mais Vasto é o Coração

 


Carlos Drummond de Andrade foi um dos maiores poetas brasileiros do século XX. Nascido em 31 de outubro de 1902, em Itabira (MG), destacou-se também como cronista e jornalista. Estreou na literatura com Alguma Poesia, em 1930, e construiu uma obra marcada pela reflexão sobre o cotidiano, o amor, a memória, o tempo e a sociedade. Entre seus livros mais conhecidos estão Sentimento do Mundo e A Rosa do Povo. Morreu no Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1987, aos 84 anos. 

Poema de Sete Faces   Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto

Desses que vivem na sombra

Disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida

 

As casas espiam os homens

Que correm atrás de mulheres

A tarde talvez fosse azul

Não houvesse tantos desejos

 

O bonde passa cheio de pernas

Pernas brancas, pretas, amarelas

Para que tanta perna, meu Deus? Pergunta meu coração

Porém, meus olhos

Não perguntam nada

 

O homem atrás do bigode

É sério, simples e forte

Quase não conversa

Tem poucos, raros amigos

O homem atrás dos óculos e do bigode

 

Meu Deus, por que me abandonaste?

Se sabias que eu não era Deus

Se sabias que eu era fraco

 

Mundo, mundo, vasto mundo

Se eu me chamasse Raimundo

Seria uma rima, não seria uma solução

Mundo, mundo, vasto mundo

Mais vasto é meu coração

 

Eu não devia te dizer

Mas essa Lua

Mas esse conhaque

Botam a gente comovido como o diabo

 

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/mais-vasto-e-o-coracao.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Quem Gasta Não Paga?

 

Uma empresa que gasta mais do que arrecada acumula prejuízos, corta investimentos e pode quebrar. O governo também gasta mais do que arrecada. A diferença é que alguém paga a conta. Adivinhe quem?  O contribuinte. O rombo vira dívida. A dívida vira juros. E, cedo ou tarde, a conta aparece no bolso do brasileiro: em impostos, preços mais altos e menos dinheiro para quem trabalha. O governo chama de gasto público. O cidadão conhece pelo nome de conta para pagar. A empresa que não controla as despesas quebra. O governo aumenta a arrecadação. E o contribuinte? Trabalha mais, paga mais e recebe a conta. Déficit público. Bolso privado. No fim, a pergunta é simples...  Quem gasta não paga a conta, até quando quem trabalha vai aguentar pagar?

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/quem-gasta-nao-paga.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Disputando o Que Não Construiu



 

Brigar por herança é uma curiosa maneira de querer colher onde não se plantou. O patrimônio deixado por alguém nasceu de trabalho, riscos, escolhas e anos de esforço. Depois que a pessoa parte, aparecem os especialistas em dividir aquilo que não construíram. A herança pode ser um direito. Transformá-la em obsessão é outra história. Quer ter patrimônio? Trabalhe. Quer deixar algo para os seus? Construa. É fácil disputar o que os outros levaram uma vida inteira para construir. Difícil é construir algo que, um dia, faça alguém disputar o que você deixou. Quem passa a vida esperando a herança alheia está construindo o quê para chamar de seu?

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/disputando-o-que-nao-construiu.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

No Tribuna de Minas: “Continuem Divididos. Está Funcionando.”

 

Meu novo artigo foi publicado na Tribuna de Minas, em 18 de setembro. A partir de uma frase histórica de Ulysses Guimarães, o texto aborda um tema que continua atual: a divisão da sociedade, a participação popular e a necessidade de fiscalizar quem exerce o poder. Até que ponto a polarização interessa a quem governa? E o que acontece quando a indignação fica apenas nas redes sociais? Leia, reflita e tire suas próprias conclusões.

https://tribunademinas.com.br/opiniao/tribuna-livre/18-09-2026/continuem-divididos-esta-funcionando-perfeitamente.html


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A Escravidão Consentida

 

Nicolau Maquiavel, autor de “O Príncipe”, não tratava a política como um jogo de inocentes. Enxergava o poder como ele realmente é: uma luta permanente por domínio, interesses e controle. Ainda hoje, a pergunta permanece desconfortavelmente atual... Quando a corrupção é aceita, o abuso é tolerado e a lei se curva aos interesses de quem manda, quem ainda pode falar em liberdade? No atual cenário político, a divisão se aprofunda, as instituições perdem credibilidade e a desconfiança avança. A descrença no STF (Supremo Tribunal Federal) ganha força, enquanto a disputa entre os Poderes transforma a crise institucional em rotina. Maquiavel provavelmente reconheceria o cenário. Uma democracia não apodrece apenas pela ação dos corruptos, mas pela tolerância de quem os aceita, os defende e transforma a corrupção em rotina. A impunidade também se alimenta de cidadãos que trocam princípios por fanatismo e defendem o erro quando o criminoso veste a camisa do próprio lado. Para quem escolhe político como time, justiça virou questão de torcida. A escravidão moderna não precisa de correntes. Basta a submissão de quem troca a própria consciência pela defesa de quem está no poder. Maquiavel estudou os governantes. A democracia exige homens e mulheres dispostos a fazer o que eles mais temem: fiscalizar, questionar e impor limites. Quem exerce o poder se incomoda quando encontra uma sociedade que enxerga a manipulação, questiona discursos e se recusa a obedecer cegamente. Em conclusão, quem mantém o povo de joelhos: o governante que pisa no pescoço ou o eleitor que, por covardia e conveniência, segura a própria coleira e ainda chama isso de liberdade?

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/a-escravidao-consentida.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Todo Mundo Quer Curtida. Quem Vai Construir?

 

Todo mundo quer seguidores, curtidas e visualizações. Ao mesmo tempo, profissões essenciais enfrentam falta de trabalhadores. Na construção civil, faltam pedreiros qualificados. Quem ergue paredes e transforma projetos em realidade pode não aparecer nas redes sociais, mas está presente em cada tijolo assentado, cada casa construída e cada obra concluída. Seu trabalho transforma ideias em realidade onde pessoas moram, trabalham e vivem. O influenciador também tem seu valor. Pode informar, divertir, criar oportunidades e alcançar milhares de pessoas. O problema não está em aparecer. Está em uma sociedade que, às vezes, parece confundir visibilidade com reconhecimento. A ironia é que curtidas podem transformar alguém em fenômeno na internet, mas não levantam paredes. Assim como uma obra não depende de milhões de seguidores, a influência também não precisa de cimento para existir. Cada profissão tem seu valor. A questão é quando a sociedade passa a premiar quem aparece e esquecer quem faz. Se todos quiserem palco, quem vai ficar no canteiro de obras? Curtida pode fazer barulho. Mas parede continua esperando pedreiro.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/todo-mundo-quer-curtida-quem-vai.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Voto Não Tem Dono

 

Em 2026, cada eleitor terá novamente uma escolha diante da urna. O voto é pessoal, livre e secreto. Ninguém precisa da bênção do vizinho, da autorização do amigo, da opinião do influenciador ou da cartilha de grupo político. Discordar é democrático. Querer mandar no voto alheio, não. Defendem a liberdade até você pensar diferente. Depois, querem controlar até o que passa pela sua cabeça. Seu voto não tem dono, muito menos procuração para quem acredita ter poder sobre sua escolha. Se a decisão é pessoal, por que ainda há quem queira decidir por outros?

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/voto-nao-tem-dono.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.