“O
Brasileiro mata e morre pelo seu time de futebol. Mas não luta pelo seu país,
pela sua geração nem a de seus filhos”. A frase revela uma contraposição
secular do Brasil. O envolvimento coletivo costuma se manifestar com mais
intensidade quando há símbolos de identificação, cânticos compartilhados e um
adversário claramente definido. Pelos times de futebol, muitos torcedores
discutem, brigam, sacrificam madrugadas, recitam escalações de memória e
protegem dirigentes com fervor quase cívico, como se a administração do clube
tivesse peso de assunto de Estado e cada cartola ocupasse lugar de herói
nacional. Já quando o assunto é o próprio país, o entusiasmo costuma perder
volume, a voz baixa, o interesse oscila e a disposição para o debate raramente
alcança o mesmo fervor reservado às arquibancadas. No estádio, um lateral mal
cobrado vira crise de proporção histórica; fora dele, direitos, deveres e
decisões públicas costumam passar quase sem plateia, o placar do país fica para
depois do intervalo. Do árbitro se exige precisão absoluta sob gritos e
indignação; da gestão política, muitas vezes aceita-se o erro repetido com uma
paciência quase profissional na arte de se conformar. Um impedimento duvidoso
costuma incendiar mais ânimos do que um orçamento público mal explicado,
talvez, porque a linha do VAR pareça mais compreensível que certas planilhas
oficiais. Há certo alívio em confiar expectativas a uma partida, naquele
roteiro, ao menos existe vencedor, derrotado e prazo marcado para o sofrimento
terminar no apito final. Na vida pública, o torneio corre sem tabela confiável,
a regra muda durante o jogo e o resultado costuma aparecer decidido longe do
público. A ironia é que muita gente recita tabela, saldo e retrospecto sem
hesitar, mas tropeça quando precisa lembrar quem assina decisões em seu
nome. Vibra com cifras de contratações
milionárias, mas esquece a educação, a saúde e o futuro... Esses temas são relevantes demais para disputar
atenção com a próxima rodada. No fundo, a nação parece dominar uma arte peculiar,
fabrica torcedores incansáveis, mas ainda produz poucos interessados em
participar do jogo fora das arquibancadas. Enfim, os principais estádios do
Brasil lotam com facilidade admirável; a cidadania ainda joga diante de
cadeiras vazias.
Sérgio Lopes Jornalista
Texto
publicado no Blog dos Letrados Desalienados
(blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de
resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo
Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e
liberdade.



