quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Burro de Coroa

 

A frase é irônica e retrata um comportamento cada vez mais comum nos dias de hoje: como a vaidade pode transformar uma simples demonstração de atenção em uma enganosa sensação de grandeza. Vivemos tempos em que curtidas, elogios, seguidores e aplausos virtuais alimentam o ego. Algumas pessoas medem seu valor pela atenção que recebem, confundindo popularidade com inteligência e exposição com relevância. No mundo das aparências, qualquer eco pode ganhar importância. O problema começa quando as críticas deixam de ser ouvidas e apenas as confirmações encontram espaço. A autocrítica diminui, enquanto a imagem criada pode se afastar cada vez mais da realidade. A frase é cruel justamente porque expõe essa contradição. Receber atenção não muda a natureza de ninguém. O burro pode ser tratado como leão, admirado como leão e até acreditar que é leão. Mas continuará sendo burro. Quando os elogios cessam e a atenção desaparece, o que realmente permanece? Talvez seja justamente nesse silêncio, longe dos aplausos e da aprovação alheia, que se descubra o verdadeiro tamanho de cada um. Afinal, somos aquilo que acreditamos ser ou apenas aquilo que os outros nos fizeram acreditar?

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/burro-de-coroa.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Parabéns pelo Básico!

 

De acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tinha 12.348 favelas e comunidades urbanas, distribuídas por 656 municípios. Nesses territórios viviam 16,4 milhões de pessoas, cerca de 8,1% da população brasileira. Saneamento básico insuficiente, infraestrutura precária, acesso limitado a serviços públicos, dificuldades de mobilidade, moradias em áreas de risco e menor acesso a trabalho e renda estão entre os principais desafios enfrentados por essa população. Ainda assim, a expressão “A favela venceu” ganhou força e pode, de fato, representar orgulho, superação e conquistas pessoais ou coletivas. O problema surge quando a frase transforma a resistência à precariedade em símbolo de vitória coletiva, como se sobreviver à ausência de direitos fosse suficiente. Portanto, vencer não deveria significar apenas resistir, mas superar a precariedade e garantir direitos. Afinal, quando sobreviver ao básico vira conquista, talvez a sociedade esteja apenas aplaudindo aquilo que nunca deveria ter faltado.

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/parabens-pelo-basico.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Cidadania de Lixeira

O lixo jogado no chão não reclama nem responde. Apenas revela a atitude de quem o deixou ali. A cidade não se suja sozinha; cada resíduo abandonado é um retrato da falta de responsabilidade de quem o descarta. Em uma sociedade que cobra limpeza, organização e responsabilidade dos outros, alguns ainda tratam a rua como extensão da própria lixeira. A contradição é simples: exigem uma cidade limpa, mas não fazem a própria parte. Bitucas de cigarro, embalagens, copos e papéis espalhados pelas calçadas parecem pequenos atos, mas revelam uma grande falta de consciência coletiva. A sujeira deixada nas ruas também expõe o descuido de quem transforma o espaço público em depósito particular. A questão não é apenas ambiental. É também de educação, respeito e cidadania. Quem joga lixo no chão revela, em poucos segundos, o quanto considera o espaço público responsabilidade dos outros. Portanto, o chão apenas guarda aquilo que algumas consciências preferem descartar. Que tipo de cidadania cabe em quem joga o lixo para fora e a responsabilidade para os outros? A sujeira pode ser recolhida; a falta de consciência permanece.

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/08/cidadania-de-lixeira.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Votou sem pensar? Agora pense nas consequências.

 

Em época de eleição, “vote consciente” vira quase um mantra. Bonito de ouvir, fácil de repetir e, aparentemente, difícil de colocar em prática. Votar conscientemente significa, antes de tudo, conhecer os candidatos, comparar propostas, conferir seus históricos e avaliar se existe preparo e compromisso com o interesse público. Porque discurso bonito, convenhamos, não paga conta, não administra cidade e muito menos governa país. Também não basta escolher alguém porque “fala a minha língua” ou porque pertence ao meu lado político. É preciso olhar o que o candidato fez, o que defendeu, com quem se aliou e se suas promessas combinam com sua trajetória. Informações estão disponíveis no Tribunal Superior Eleitoral, na "imprensa" e em fontes confiáveis. O problema é que pesquisar dá trabalho. Repetir o que alguém disse nas redes sociais é bem mais confortável. Outro ponto importante é entender as regras da eleição: financiamento de campanha, coligações, quociente eleitoral, propaganda e atribuições de cada cargo. Afinal, escolher quem vai administrar dinheiro público deveria exigir um pouco mais de critério do que escolher um time para torcer. E há uma regra que deveria ser óbvia.  Voto não é mercadoria, vendê-lo por dinheiro, favor, emprego ou promessa significa trocar um direito de cidadania por uma vantagem passageira. Depois, não adianta reclamar do político que “se vendeu”. Às vezes, o negócio começou bem antes da posse. No fim, o voto é individual e a escolha pertence a cada eleitor. Mas existe uma diferença entre escolher um representante e simplesmente entregar o voto. Se você vota por idolatria, paixão, promessa ou fanatismo, talvez não esteja escolhendo um candidato. Está apenas terceirizando sua consciência. E tem um detalhe cruel, depois de votar errado, só resta assistir à conta chegar.

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/08/votou-sem-pensar-agora-pense-nas.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Nelson Rodrigues no Divã da Política

O escritor, jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues tinha uma brutal incredulidade diante dos  posicionamentos políticos. “Nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política”: uma paixão sem grandeza, que pode impedir o homem de enxergar além de suas próprias convicções. A frase ganha relevância no cenário político atual marcado pela crescente polarização e pelo acirramento do debate público, a política passou, para muitos, a ocupar um lugar central na vida cotidiana. Em alguns casos, deixou de ser apenas debate de ideias e passou a assumir contornos de confronto permanente. Ter convicções não é o problema. A democracia depende de cidadãos atentos à vida pública e dispostos a defender suas ideias. O problema começa quando a paixão política se sobrepõe ao senso crítico. O adversário vira inimigo, os fatos passam a ser filtrados conforme as conveniências e a crítica é confundida com deslealdade. É aí que Nelson Rodrigues permanece atual. Sua provocação não prega a indiferença, mas alerta para os riscos de uma política dominada pela paixão e pela intolerância. Quando o indivíduo só reconhece virtudes no próprio campo e defeitos no adversário, a política deixa de ser debate e se transforma em cegueira. No Brasil de 2026, a lucidez política passa pela capacidade de discordar sem perder o senso crítico. No fim, fica a cena que Nelson Rodrigues saberia descrever como poucos: adultos de joelhos diante do próprio partido, chamando fanatismo de convicção e cegueira de lealdade. A paixão política faz o resto, dispensa o cérebro e ainda exige aplauso.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/08/nelson-rodrigues-no-diva-da-politica.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Futuro? Só depois das eleições

 

O país fala em desenvolvimento, mas mantém uma contradição persistente... Amplia os custos da política, enquanto a valorização de quem forma cidadãos permanece em segundo plano. Em 2026, ano eleitoral, discursos sobre futuro, formação e desenvolvimento voltarão ao centro das campanhas. Promessas ganham espaço; investimentos, nem sempre. Afinal, cuidar do futuro costuma render bons discursos. Na prática, quem atua nas salas de aula ainda enfrenta remuneração, condições de trabalho e reconhecimento aquém da importância da função. Ao passo que campanhas movimentam estruturas milionárias, a formação das próximas gerações segue aguardando prioridade. A questão é simples. Quanto custa manter a política e quanto o país está disposto a investir em quem prepara o futuro? As eleições passam. As consequências das escolhas permanecem.

 

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/08/futuro-so-depois-das-eleicoes.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Fiscaliza Quem?

 

Millôr Fernandes, um dos principais nomes do humor e da crítica política brasileira, ficou conhecido por expor, com ironia, as contradições do poder. Com essa afirmação: “Isso sim é um Congresso eficiente! Ele mesmo rouba, ele mesmo investiga, ele mesmo absolve”, expõe, com sarcasmo, as contradições presentes nas estruturas do poder... Quem fiscaliza também pode precisar ser fiscalizado? No atual cenário político brasileiro, a frase permanece atual diante das denúncias, investigações, disputas partidárias e conflitos institucionais que atravessam o ambiente político nacional. Millôr não fazia da crítica política uma questão de alinhamento partidário. Seu foco estava nas contradições do poder e nos interesses particulares que, muitas vezes, se sobrepõem ao interesse público. A ironia permanece atual quando o próprio sistema investiga e julga seus integrantes. A pergunta, então, é inevitável: quem fiscaliza os fiscais? Millôr fazia humor com a política. O problema começa quando a realidade supera a piada, a ironia vira notícia e o absurdo ganha mandato.

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/08/fiscaliza-quem.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.