quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Uai, Vêvei Tu Vida!

 


“Vêvei tu vida e deixa a do zôto em paz!”. A recomendação é simples, porém parece difícil de cumprir. Muitas pessoas não conseguem varrer a própria calçada, mas fiscaliza até a poeira da casa dos outros. Sabe quem trabalha, o que veste, quanto ganha, o que come, com quem namora e até como deveria viver. Enquanto isso, o próprio quintal está caindo aos pedaços. Mas deixa estar, cuidar da própria vida dá trabalho. Da vida alheia, basta abrir a boca. Nas redes sociais, então, tem fiscal para tudo. Palpita, julga, condena e, muitas vezes, nem sabe da história inteira. Fala como quem tem procuração para administrar a vida dos outros. Quando alguém reage, vem o velho “Calma, era só minha opinião”. Uai, pode ser, mas falar o que pensa não dá procuração para mandar na vida de ninguém. Talvez o incômodo seja mais simples, há quem não suporte ver os outros escolhendo, pensando e vivendo do jeito que bem entendem. Enfim, cuidar da própria vida dá trabalho. Já a dos outros é fácil: opinião, julgamento e fofoca. E ainda tem quem se ache dono da verdade. “Então, uai: vêvei tu vida!” Da minha, deixa que eu dou conta. Palpite?  Se eu quiser, eu peço.

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/uai-vevei-tu-vida.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Os Ratos, a Conta e a Culpa

 

A declaração de Millôr Fernandes é marcada pela ironia e expressa uma vivência que se repete na vida política do país. Quem é responsável pelo problema recorrentemente surge como refém das situações. A responsabilidade é transferida para o adversário, para a crise ou para problemas herdados. Por sua vez, os agentes responsáveis sempre encontram uma desculpa conveniente para sair de cena. A narrativa muda, os culpados mudam, a conta, porém, chega ao cidadão. É o conhecido jogo de mudar a versão para preservar os protagonistas. Quando o erro nunca tem dono, a impunidade já sabe onde morar. A sociedade que aceita qualquer explicação acaba tratando o absurdo como algo normal. A democracia não combina com memória conveniente, os governantes esquecem e os eleitores deveriam lembrar. Portanto, os ratos já foram identificados. E a conta, quem paga?

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/os-ratos-conta-e-culpa.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Parabéns, Vaca! Você Escolheu!

 

A vaca segue para o matadouro, convencida de que escolher o caminho é escolher o destino. À frente, dois corredores: direita ou esquerda? Escolha o caminho e descubra depois quem escolheu por você. De um lado, gritam pela democracia; do outro, bradam pela liberdade, mas ninguém explica por que os dois corredores terminam no mesmo lugar. E a vaca escolhe seu lado, orgulhosa da liberdade de decidir por qual corredor será conduzida ao mesmo destino. Enquanto isso, direita e esquerda disputam o corredor, enquanto o abate espera no fim. No Brasil polarizado, discordar virou guerra, questionar virou traição e pensar por conta própria virou ameaça aos dois lados. Cada lado vende sua verdade pronta, fabrica seu inimigo e apresenta seu salvador de plantão. Basta escolher uma bandeira para receber o kit completo: certezas prontas, inimigos oficiais e zero espaço para questionamentos. O eleitor vibra, compartilha, briga e comemora... E quanto mais se divide, mais fácil fica conduzi-lo. A política agradece, o rebanho discute o caminho, enquanto os condutores permanecem no controle. Direita ou esquerda? Escolha seu corredor, defenda sua bandeira e ataque o outro lado. No final de tudo, todos chegam ao mesmo lugar. Mas quem precisa pensar nisso, não é mesmo?

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/parabens-vaca-voce-escolheu.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A Ressaca Vem. A Conta Também.

 

Amadureça para não confundir beber os fins de semana com curtir a vida. Consumir bebidas alcoólicas em ocasiões sociais, com moderação e com equilíbrio, é uma escolha. O problema começa quando a cerveja vira compromisso, a ressaca vira rotina e o salário desaparece antes de cumprir sua missão. Para juntar dinheiro, nunca sobra, mas para a ‘resenha’ de sexta, sábado e domingo, o dinheiro milagrosamente aparece.  E vem a velha desculpa: “a vida é curta”. Talvez por isso o salário também nunca chegue ao fim do mês. Não é preciso abandonar a diversão, o desafio pode estar em descobrir que aproveitar a vida também inclui não estar quebrado no dia seguinte. Em conclusão, de que adianta brindar ao presente se o futuro fica pagando a conta?

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/a-ressaca-vem-conta-tambem.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O aplauso que desaparece

 

 

Pessoas próximas raramente admitem o que sentem. Preferem o silêncio, a ausência do like e o súbito desinteresse quando você começa a se destacar. É mais fácil retirar os elogios, diminuir a presença e desaparecer aos poucos. Na era das redes sociais, até a admiração parece ter limites. Enquanto alguns celebram suas conquistas, outros apenas observam de longe, esperando que seu brilho diminua. Nem todo silêncio é maturidade; às vezes, é ressentimento vestido de indiferença. Por isso, vale menos contar quem se manifesta e mais perceber quem permanece quando sua conquista deixa de ser conveniente. Há quem caminhe ao seu lado apenas enquanto você não ameaça seu próprio ego. Mas o tempo tem sua própria manchete, enquanto uns gastam energia esperando a queda alheia, outros seguem avançando. Em síntese, cada pessoa revela seu verdadeiro tamanho não pelo aplauso que oferece, mas pela capacidade de lidar com o crescimento de quem está ao seu lado.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/o-aplauso-que-desaparece.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Burro de Coroa

 

A frase é irônica e retrata um comportamento cada vez mais comum nos dias de hoje: como a vaidade pode transformar uma simples demonstração de atenção em uma enganosa sensação de grandeza. Vivemos tempos em que curtidas, elogios, seguidores e aplausos virtuais alimentam o ego. Algumas pessoas medem seu valor pela atenção que recebem, confundindo popularidade com inteligência e exposição com relevância. No mundo das aparências, qualquer eco pode ganhar importância. O problema começa quando as críticas deixam de ser ouvidas e apenas as confirmações encontram espaço. A autocrítica diminui, enquanto a imagem criada pode se afastar cada vez mais da realidade. A frase é cruel justamente porque expõe essa contradição. Receber atenção não muda a natureza de ninguém. O burro pode ser tratado como leão, admirado como leão e até acreditar que é leão. Mas continuará sendo burro. Quando os elogios cessam e a atenção desaparece, o que realmente permanece? Talvez seja justamente nesse silêncio, longe dos aplausos e da aprovação alheia, que se descubra o verdadeiro tamanho de cada um. Afinal, somos aquilo que acreditamos ser ou apenas aquilo que os outros nos fizeram acreditar?

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/burro-de-coroa.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Parabéns pelo Básico!

 

De acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tinha 12.348 favelas e comunidades urbanas, distribuídas por 656 municípios. Nesses territórios viviam 16,4 milhões de pessoas, cerca de 8,1% da população brasileira. Saneamento básico insuficiente, infraestrutura precária, acesso limitado a serviços públicos, dificuldades de mobilidade, moradias em áreas de risco e menor acesso a trabalho e renda estão entre os principais desafios enfrentados por essa população. Ainda assim, a expressão “A favela venceu” ganhou força e pode, de fato, representar orgulho, superação e conquistas pessoais ou coletivas. O problema surge quando a frase transforma a resistência à precariedade em símbolo de vitória coletiva, como se sobreviver à ausência de direitos fosse suficiente. Portanto, vencer não deveria significar apenas resistir, mas superar a precariedade e garantir direitos. Afinal, quando sobreviver ao básico vira conquista, talvez a sociedade esteja apenas aplaudindo aquilo que nunca deveria ter faltado.

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/parabens-pelo-basico.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.