quarta-feira, 1 de abril de 2026

1º de Abril o Ano Inteiro

 


O dia da mentira é celebrado em primeiro de abril, algumas pessoas aproveitam o momento para fazerem ações bem-humoradas, surpresas informais, situações descontraídas. Entretanto, muitos indivíduos vivem a mentira durante todo os outros dias do ano. Indicadores frequentemente associados à falta de veracidade em homens e mulheres incluem habilidade de manipulação, boa atuação verbal, espontaneidade calculada, confiança ao mentir, facilidade para interpretar sinais não verbais, eloquência, preparo prévio, criatividade narrativa, experiência em sustentar versões falsas, memória eficiente, capacidade de imitar comportamentos considerados honestos, discurso econômico, uso de afirmações difíceis de verificar, raciocínio rápido, controle emocional e boa capacidade de expressão. Diante disso, a mentira produz efeitos profundos: compromete a confiança, favorece o isolamento social e pode provocar danos à saúde mental, como ansiedade, estresse crônico e sentimento de culpa. Também alimenta um ciclo contínuo de ocultações, exige elevado esforço cognitivo e pode resultar em perda de credibilidade profissional, baixa autoestima e até consequências legais. Em síntese, a mentira deixou de ser exceção e passou a circular com naturalidade como ferramenta de lucro, defesa de interesses pessoais e manipulação da opinião pública. Em muitos ambientes, enganar já parece estratégia de sobrevivência, ou de poder. A corrupção se espalhou em escala tão ampla que a falsidade ganhou status de hábito social. No fim, continua valendo a regra mais antiga e menos praticada:  é a verdade que liberta. A formação ética começa muito antes da escola, inicia no exemplo familiar, nas relações e nos valores transmitidos antes mesmo do nascimento de uma criança. Quem cultiva a verdade não apenas fala com clareza, mas também respeita os fatos, algo cada vez mais raro no mercado das versões prontas.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

terça-feira, 31 de março de 2026

O Peso Financeiro da Fé

 

Deus é tradicionalmente apresentado pelas religiões como criador do universo e senhor de todas as riquezas. Diante dessa compreensão, uma pergunta aparece com frequência no debate religioso. Por que determinadas vertentes doutrinarias preservam o dízimo de 10% como referência estável de compromisso financeiro entre os fiéis? O dízimo, tradicionalmente defendido como ato de fé e manutenção religiosa, tornou-se também um dos pilares financeiros de grandes estruturas evangélicas no Brasil. Em muitos templos, a contribuição é apresentada não apenas como gesto espiritual, mas como prova concreta de fidelidade, bênção futura e até proteção divina. Na prática, a lógica econômica é simples, quanto maior o número de fiéis convencidos de que doar é dever sagrado, maior a arrecadação. O problema aparece quando fé e pressão moral caminham juntas, especialmente entre pessoas de baixa renda, para quem 10% representa escolha entre devoção e orçamento doméstico. O fenômeno ganha força com o fanatismo religioso, muitos seguidores aceitam a contribuição sem questionar destino, transparência ou necessidade real dos recursos. Em determinados contextos, líderes religiosos conhecidos ampliaram o alcance do púlpito, converteram a mensagem em influência social e consolidaram igrejas como estruturas de grande porte, com presença constante nos meios de comunicação. Isso não significa que toda contribuição seja abuso. Igrejas têm despesas reais: aluguel, manutenção, projetos sociais, funcionários e atividades comunitárias. A questão surge quando a arrecadação vira centro da mensagem e a espiritualidade passa a ser medida pelo comprovante de pagamento. Entre a confiança espiritual do fiel e certos discursos religiosos, persiste uma coincidência notável: o infinito divino é frequentemente explicado ao lado de metas financeiras bastante terrenas.

                                                    Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Mil notificações, nenhuma consideração

 

No século XXI, quase ninguém admite, porém milhões de pessoas transformaram o celular em altar e a conveniência em critério de relacionamento. A pressa virou desculpa universal, falta tempo para responder uma mensagem, porém sobra disposição para consultar a tela a cada minuto, como se dali pudesse surgir a salvação do dia. A frase “Nunca confie em pessoas que levam horas para responder suas mensagens, mas, quando estão com você, olham o próprio telefone a cada segundo” sintetiza uma conduta já generalizada. Há quem ignore (comunicações, recados, contatos escritos, textos enviados, correspondências digitais, interações escritas) por dias e, no encontro presencial, mantenha o aparelho sob vigilância permanente, num zelo quase religioso. Quando vem a explicação: “não tive tempo para responder”, ela costuma soar tão convincente quanto discurso decorado de ocasião. Afinal, quem percorre redes sociais, acompanha notificações e desbloqueia o telefone incontáveis vezes ao dia dificilmente foi vencido por meio minuto de consideração. Na prática, não é falta de tempo; é seleção de interesse. Responde-se o conveniente, adia-se o restante e chama-se isso de rotina moderna. O silêncio seletivo ganhou verniz social, embora continue sendo apenas descaso com embalagem digital. No fim, certos indivíduos exibem um raro talento contemporâneo, estão sempre conectados para o mundo inteiro e curiosamente ausentes para quem realmente lhes dirige a palavra. Indiferença pura, discreta por fora, destrutiva por dentro.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Quando o recurso chega, já tem fila para posar

 


Segundo o Portal da Transparência, a emenda parlamentar é um instrumento usado pelo Congresso Nacional do Brasil durante a análise do orçamento anual para incluir, retirar ou alterar despesas propostas pelo Executivo. Na prática, deputados e senadores utilizam esse mecanismo para direcionar recursos públicos conforme compromissos assumidos com estados, municípios e instituições.  O debate envolve duas questões centrais. A primeira é avaliar se as emendas parlamentares beneficiam os municípios? Elas são uma importante fonte de recursos para cidades, sobretudo as de pequeno e médio porte, com baixa arrecadação própria. Financiam obras e serviços como escolas, unidades de saúde, pavimentação, saneamento, ambulâncias e revitalização de espaços públicos, ampliando a capacidade de investimento local. A segunda questão é se as emendas parlamentares servem apenas ao interesse público ou também alimentam vitrines eleitorais de vereadores, prefeitos, deputados e senadores? Em alguns casos, os recursos são destinados a bases eleitorais, ampliando a visibilidade de prefeitos e parlamentares. Com apoio de vereadores, deputados e senadores anunciam verbas e reforçam alianças políticas locais. Diante desse cenário, cabe ao eleitor avaliar se a destinação de emendas atende de forma direta às necessidades da população e às demandas locais ou se também é utilizada para ampliar visibilidade política. Em determinadas situações, o anúncio público de verbas e investimentos pode gerar reconhecimento eleitoral, especialmente em períodos próximos às eleições. Em tese, a emenda parlamentar deve atender ao interesse coletivo; na prática, porém, nem sempre escapa da tentação de virar vitrine política. Quando verba pública chega acompanhada de excesso de anúncio, a obra corre o risco de render mais capital eleitoral do que eficiência administrativa. Prefeitos, vereadores, deputados e senadores têm função pública, não direito autoral sobre recurso que já pertence ao contribuinte. Amigos, parentes e aliados partidários não deveriam ocupar lugar privilegiado nesse percurso. Ao cidadão, interessa menos a placa de autoria e mais o resultado concreto entregue à população

 

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

quinta-feira, 26 de março de 2026

O fundo eleitoral nunca entra em crise

 

O fundo eleitoral é o principal mecanismo público de financiamento das eleições no Brasil. Nesse contexto, o Tribunal Superior Eleitoral, por meio do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), ampliou sua relevância nas disputas eleitorais recentes. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, o fundo foi criado em 2017 pelo Congresso Nacional para compensar o fim das doações empresariais, proibidas por decisão do Supremo Tribunal Federal. A distribuição e o uso dos recursos seguem regras definidas pela Resolução TSE nº 23.605/2019. O FEFC financia exclusivamente campanhas eleitorais e é liberado em anos de eleições. Os recursos, definidos pela Lei Orçamentária Anual, são repassados pelo Tesouro Nacional ao Tribunal Superior Eleitoral, que os distribui aos partidos conforme o desempenho eleitoral anterior: 2% igualmente entre as legendas, 35% pelos votos para a Câmara dos Deputados, 48% pela bancada federal e 15% pela representação no Senado Federal. Ainda de acordo com o TSE, o fundo eleitoral passou de R$ 1,7 bilhão em 2018 para R$ 2,03 bilhões em 2020, alcançou R$ 4,9 bilhões em 2022 e 2024 e deve somar cerca de R$ 5 bilhões em 2026, conforme lei aprovada pelo Congresso Nacional. Para 2026, a minuta do FEFC prevê duas mudanças, a Secretaria de Planejamento, Orçamento, Finanças e Contabilidade ficará responsável pela distribuição dos recursos, e os partidos poderão ajustar os critérios de repasse até 30 de agosto do ano eleitoral, mediante justificativa. Diante dessa realidade, algumas constatações são inevitáveis: no país onde faltam recursos para água, esgoto, limpeza urbana e manejo de resíduos, setores essenciais como saúde, transporte, educação, lazer e cultura seguem submetidos à precariedade. A escassez persiste, a demanda cresce e a insuficiência administrativa continua convertendo direitos básicos em promessas recorrentes. Em síntese, para a população brasileira, a lição fiscal parece cruelmente objetiva: para água, saúde, transporte e educação, sempre se invoca escassez; para a engrenagem eleitoral, a restrição desaparece sem constrangimento. Manter quase R$ 5 bilhões nas eleições de 2026 apenas reforça um ritual conhecido: o básico espera, enquanto a política garante, antes de tudo, a própria sobrevivência.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

O Brasil não supera escândalos; apenas atualiza personagens

 


No Brasil, escândalo político raramente encerra uma etapa; quase sempre apenas desloca o foco para o episódio seguinte. Depois do Mensalão e da Operação Lava Jato, o caso Banco Master devolve ao debate público personagens e mecanismos que o país conhece há tempo: suspeitas recorrentes, articulações discretas e pressões exercidas sobre instituições. O episódio volta a aproximar mercado financeiro, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal... Uma combinação que, no histórico brasileiro, raramente atravessa períodos de serenidade. Os nomes se alteram, os discursos mudam de tom, mas a engrenagem de fundo permanece familiar.  O efeito de novas crises já não se restringe ao impacto imediato das manchetes. Cada desdobramento acrescenta desgaste institucional, amplia a cautela econômica e aprofunda uma sensação coletiva de exaustão que há muito deixou de depender de surpresa. Em parte, considerável da sociedade, consolidou-se uma desconfiança quase imediata, já não se discute a possibilidade de outro capítulo, apenas o momento em que ele inevitavelmente surgirá.  Combater corrupção, nesse cenário, deixou de representar apenas resposta jurídica ou exigência ética. Tornou-se também esforço de contenção de um desgaste mais profundo, o da confiança pública, um ativo cada vez mais raro e que, no Brasil, frequentemente reaparece fragilizado antes mesmo de conseguir se recompor.

 

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

terça-feira, 24 de março de 2026

Banco Master expõe tensão entre mercado, política e STF

 


O ambiente político nacional atravessa um período de forte desgaste. O caso do Banco Master demonstra um quadro de tensão entre poderes que ultrapassa o campo financeiro e alcança também o Judiciário e a política nacional. A investigação, envolvendo Polícia Federal, Ministério Público, Comissão de Valores Mobiliários e Supremo Tribunal Federal, levanta questões sobre governança corporativa, transparência e auditoria independente. O caso pressiona o Supremo Tribunal Federal e o Banco Central do Brasil após a prisão de Daniel Vorcaro e o veto à venda ao Banco de Brasília. A atuação em crédito consignado ao setor público e o uso de fundos públicos ampliam a gravidade do episódio. Diante desse cenário, duas questões se destacam: qual é a percepção do eleitor brasileiro sobre eventuais candidatos às eleições de outubro citados no caso Master? E como a população avalia a confiança na Suprema Corte? Uma pesquisa da Genial Investimentos em parceria com a Quaest, divulgada em 12 de março, indica que 49% dos eleitores brasileiros dizem não confiar no Supremo Tribunal Federal, enquanto 43% afirmam confiar na Corte. Em relação ao levantamento anterior, o índice de confiança recuou sete pontos percentuais, enquanto o de desconfiança subiu dois. No mesmo estudo, 38% afirmaram que evitariam votar em candidatos associados ao caso Banco Master. A pesquisa ouviu presencialmente 2.004 eleitores entre 6 e 9 de março, com margem de erro de 3,5 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento mostra ainda que 72% dos eleitores consideram que o Supremo Tribunal Federal tem poder excessivo, enquanto 18% discordam. Outros 66% defendem votar em candidatos ao Senado comprometidos com a análise de pedidos de impeachment de ministros da Corte, ante 22% de discordância. Segundo a pesquisa, 59% avaliam o STF como alinhado ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto 26% discordam dessa percepção. Já 51% afirmam que a Corte foi fundamental para a manutenção da democracia no país, ao passo que 38% têm avaliação contrária.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.