A frase acima revela uma contradição institucional difícil de ignorar. Enquanto
um professor dá conta de quarenta crianças e ainda corrige provas em casa, um
vereador frequentemente parece incapaz de respirar sem uma fileira de
assessores ao redor. De um lado, o educador acumula preparo contínuo,
responsabilidade formativa e desgaste diário, quase sempre sob remuneração
aquém da relevância do trabalho. De outro, a nomeação de assessores
frequentemente privilegia vínculos de confiança e articulação política mais do
que exigências técnicas objetivas. O contraste dispensa comentários, formar
gerações tem gasto modesto; viver à sombra do poder, curiosamente, devora
recursos do contribuinte. A sala de aula cobra competência diária e
responsabilidade constante; o gabinete, muitas vezes, transforma lealdade em
cargo confortável e bem pago. Há professores virando a noite entre provas e
boletos; assessores queimam café caro e salário público, brindando a
incompetência como arte refinada. No fundo, educar dezenas custa quase nada;
sustentar alguns por perto vale bolsos cheios e fãs idiotas. A lição é cruel e
direta: enquanto um professor exausto carrega quarenta futuros adultos nas
costas, vinte sortudos fazem mágica com um mandato, e ainda recebem tapinha nas
costas.
Sérgio Lopes Jornalista
Texto
publicado no Blog dos Letrados Desalienados
(blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de
resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo
Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e
liberdade.


