“Vêvei
tu vida e deixa a do zôto em paz!”. A recomendação é simples, porém parece
difícil de cumprir. Muitas pessoas não conseguem varrer a própria calçada, mas
fiscaliza até a poeira da casa dos outros. Sabe quem trabalha, o que veste,
quanto ganha, o que come, com quem namora e até como deveria viver. Enquanto
isso, o próprio quintal está caindo aos pedaços. Mas deixa estar, cuidar da
própria vida dá trabalho. Da vida alheia, basta abrir a boca. Nas redes
sociais, então, tem fiscal para tudo. Palpita, julga, condena e, muitas vezes,
nem sabe da história inteira. Fala como quem tem procuração para administrar a
vida dos outros. Quando alguém reage, vem o velho “Calma, era só minha
opinião”. Uai, pode ser, mas falar o que pensa não dá procuração para mandar na
vida de ninguém. Talvez o incômodo seja mais simples, há quem não suporte ver
os outros escolhendo, pensando e vivendo do jeito que bem entendem. Enfim,
cuidar da própria vida dá trabalho. Já a dos outros é fácil: opinião,
julgamento e fofoca. E ainda tem quem se ache dono da verdade. “Então, uai:
vêvei tu vida!” Da minha, deixa que eu dou conta. Palpite? Se eu quiser, eu peço.
Texto
publicado no Blog dos Letrados Desalienados
(https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/uai-vevei-tu-vida.html), em comemoração aos 10 anos de
resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo
Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e
liberdade.





