A frase
de Enéas Carneiro: “Na verdade, nós não somos mais uma sociedade, somos um
bando. Porque não há ordem, não há mais respeito, não há decência”, propõe
uma crítica fundamentada ao afirmar que “não somos mais uma sociedade, somos um
bando. A escolha linguística tem intenção definida: “sociedade” requer normas
comuns, responsabilidade conjunta e algum grau de coesão ética; “bando”, em
contrapartida, indica uma lógica de sobrevivência mais elementar, baseada no
interesse imediato, na força e na conveniência. Representa uma quebra simbólica
do acordo social. Não é uma afirmação literal, mas um estímulo à reflexão. Evidencia
o contraste entre o ideal institucional e a prática cotidiana, marcada por
seletividade e baixa confiança. O problema não é a ausência de ordem, mas sua
aplicação desigual, regras existem, mas variam conforme o contexto. No cenário
político brasileiro atual, a crítica segue pertinente, a polarização substitui
o debate e o discurso de ordem convive com práticas inconsistentes. O
resultado? Um Estado presente, porém, caprichosamente corrupto, moral e
instituições à venda, caos embrulhado em papel oficial. Essa percepção apodrece
o senso coletivo e legitima o “cada participante age de maneira independente”. Perante
o evento das chuvas em Juiz de Fora MG, nos dias 23 e 24 de fevereiro de 2026, a
frase deixa de ser ideia e vira prova, o desastre não cria a desordem, só
arranca a máscara. A repetição das tragédias demonstra a deterioração que já se
encontrava presente: planejamento frágil, risco ignorado, prevenção inexistente
e resposta desigual. Nesse cenário, a “fatalidade” climática é só desculpa, o
desastre já estava armado. A crítica de Enéas Carneiro troca o foco, não é o
evento, é a estrutura. Se não protege os vulneráveis nem prevê o óbvio, não é
sociedade é cenário. O problema não é falta de lei, é a distância entre regra e
prática, daí nasce o cinismo. Norma que
não é aplicada efetivamente, funcionando apenas como formalidade. E há o risco
no próprio diagnóstico de Enéas Carneiro, ao radicalizar, simplifica e ignora
avanços e reduz tudo ao colapso. O país não é um “bando”; a governança
permanece, ainda que limitada em eficácia. A força da frase é provocar,
incomodar, cutucar e expor as rachaduras. Em síntese, não descreve, acusa... Quando
a regra vira teatro e o interesse próprio manda, o tecido social se rompe e
cada um joga por si. Alerta. Civilização? Apenas pele, corrupção disfarçada de
ordem. No momento em que a farsa desmorona, a verdade vem à tona, e o “bando”
surge: sempre no comando, sorrateiro, cruel e intocável.
Sérgio
Lopes Jornalista
Texto
publicado no Blog dos Letrados Desalienados
(blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de
resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo
Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e
liberdade.



