Jesus
de Nazaré sempre foi descrito como pacífico, sossegado, tranquilo, bondoso. Contudo a ira do personagem central dos
evangelhos foi manifestada, quando “Jesus não abençoou os que comercializavam
no templo. Ele virou as mesas.” Uma
postura contundente de Cristo, o equilíbrio foi sucedido por ação enérgica: estruturas
ao chão, valores dispersos, vendedores afastados, indignação sem protocolo. O Redentor não agiu
por descontrole, a reação moral ocorreu diante da transformação do sagrado em
lógica de mercado. O que se convencionou chamar de “nervosismo de Jesus” não
foi fruto de descarga emocional, surgiu do choque entre fé e interesse
financeiro, entre oração e cálculo comercial. O templo, destinado ao
recolhimento, havia se tornado espaço de comércio, onde devoção e interesse
financeiro conviviam com naturalidade burocrática. O problema ia além da venda,
a espiritualidade havia sido convertida em arrecadação. Séculos depois, a cena
persiste, mudaram os meios, multiplicaram-se campanhas e promessas de
prosperidade em linguagem financeira. Em certos ambientes, a fé adotou lógica
de investimento... Contribui-se esperando retorno, a graça circula com preço
implícito... Não se pede dinheiro, assina-se pacto; o discurso finge propósito,
o caixa sabe a verdade. A lógica financeira é intacta, a retórica é polida. Em
alguns casos, o altar se aproxima de práticas de mercado, onde a transcendência
convive com foco no lucro. Com o dinheiro no centro, o sentido da fé se altera
de forma silenciosa. Ao transformar o sagrado em promessa de vantagem pessoal, a
devoção perde reflexão e passa a conviver com uma lógica implícita: a
contribuição segue a lei do retorno. O detalhe desconfortável é que muitos
citam Jesus Cisto, o alvo do templo? O sagrado virou mercadoria e detalhe
irrelevante para todos. Prega-se renúncia em estrutura cara, humildade em
ambiente tarifado e crítica ao materialismo com contabilidade em dia. Isso não
apaga o trabalho sério de muitas comunidades, apesar disso revela que parte do
meio religioso aprendeu a transformar emoção em arrecadação. Se o Nazareno
cruzasse certos corredores hoje, talvez visse resquício de fé e balanço intacto.
Sérgio
Lopes Jornalista
Texto
publicado no Blog dos Letrados Desalienados
(blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de
resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo
Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e
liberdade


