quinta-feira, 26 de março de 2026

O fundo eleitoral nunca entra em crise

 

O fundo eleitoral é o principal mecanismo público de financiamento das eleições no Brasil. Nesse contexto, o Tribunal Superior Eleitoral, por meio do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), ampliou sua relevância nas disputas eleitorais recentes. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, o fundo foi criado em 2017 pelo Congresso Nacional para compensar o fim das doações empresariais, proibidas por decisão do Supremo Tribunal Federal. A distribuição e o uso dos recursos seguem regras definidas pela Resolução TSE nº 23.605/2019. O FEFC financia exclusivamente campanhas eleitorais e é liberado em anos de eleições. Os recursos, definidos pela Lei Orçamentária Anual, são repassados pelo Tesouro Nacional ao Tribunal Superior Eleitoral, que os distribui aos partidos conforme o desempenho eleitoral anterior: 2% igualmente entre as legendas, 35% pelos votos para a Câmara dos Deputados, 48% pela bancada federal e 15% pela representação no Senado Federal. Ainda de acordo com o TSE, o fundo eleitoral passou de R$ 1,7 bilhão em 2018 para R$ 2,03 bilhões em 2020, alcançou R$ 4,9 bilhões em 2022 e 2024 e deve somar cerca de R$ 5 bilhões em 2026, conforme lei aprovada pelo Congresso Nacional. Para 2026, a minuta do FEFC prevê duas mudanças, a Secretaria de Planejamento, Orçamento, Finanças e Contabilidade ficará responsável pela distribuição dos recursos, e os partidos poderão ajustar os critérios de repasse até 30 de agosto do ano eleitoral, mediante justificativa. Diante dessa realidade, algumas constatações são inevitáveis: no país onde faltam recursos para água, esgoto, limpeza urbana e manejo de resíduos, setores essenciais como saúde, transporte, educação, lazer e cultura seguem submetidos à precariedade. A escassez persiste, a demanda cresce e a insuficiência administrativa continua convertendo direitos básicos em promessas recorrentes. Em síntese, para a população brasileira, a lição fiscal parece cruelmente objetiva: para água, saúde, transporte e educação, sempre se invoca escassez; para a engrenagem eleitoral, a restrição desaparece sem constrangimento. Manter quase R$ 5 bilhões nas eleições de 2026 apenas reforça um ritual conhecido: o básico espera, enquanto a política garante, antes de tudo, a própria sobrevivência.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

O Brasil não supera escândalos; apenas atualiza personagens

 


No Brasil, escândalo político raramente encerra uma etapa; quase sempre apenas desloca o foco para o episódio seguinte. Depois do Mensalão e da Operação Lava Jato, o caso Banco Master devolve ao debate público personagens e mecanismos que o país conhece há tempo: suspeitas recorrentes, articulações discretas e pressões exercidas sobre instituições. O episódio volta a aproximar mercado financeiro, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal... Uma combinação que, no histórico brasileiro, raramente atravessa períodos de serenidade. Os nomes se alteram, os discursos mudam de tom, mas a engrenagem de fundo permanece familiar.  O efeito de novas crises já não se restringe ao impacto imediato das manchetes. Cada desdobramento acrescenta desgaste institucional, amplia a cautela econômica e aprofunda uma sensação coletiva de exaustão que há muito deixou de depender de surpresa. Em parte, considerável da sociedade, consolidou-se uma desconfiança quase imediata, já não se discute a possibilidade de outro capítulo, apenas o momento em que ele inevitavelmente surgirá.  Combater corrupção, nesse cenário, deixou de representar apenas resposta jurídica ou exigência ética. Tornou-se também esforço de contenção de um desgaste mais profundo, o da confiança pública, um ativo cada vez mais raro e que, no Brasil, frequentemente reaparece fragilizado antes mesmo de conseguir se recompor.

 

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

terça-feira, 24 de março de 2026

Banco Master expõe tensão entre mercado, política e STF

 


O ambiente político nacional atravessa um período de forte desgaste. O caso do Banco Master demonstra um quadro de tensão entre poderes que ultrapassa o campo financeiro e alcança também o Judiciário e a política nacional. A investigação, envolvendo Polícia Federal, Ministério Público, Comissão de Valores Mobiliários e Supremo Tribunal Federal, levanta questões sobre governança corporativa, transparência e auditoria independente. O caso pressiona o Supremo Tribunal Federal e o Banco Central do Brasil após a prisão de Daniel Vorcaro e o veto à venda ao Banco de Brasília. A atuação em crédito consignado ao setor público e o uso de fundos públicos ampliam a gravidade do episódio. Diante desse cenário, duas questões se destacam: qual é a percepção do eleitor brasileiro sobre eventuais candidatos às eleições de outubro citados no caso Master? E como a população avalia a confiança na Suprema Corte? Uma pesquisa da Genial Investimentos em parceria com a Quaest, divulgada em 12 de março, indica que 49% dos eleitores brasileiros dizem não confiar no Supremo Tribunal Federal, enquanto 43% afirmam confiar na Corte. Em relação ao levantamento anterior, o índice de confiança recuou sete pontos percentuais, enquanto o de desconfiança subiu dois. No mesmo estudo, 38% afirmaram que evitariam votar em candidatos associados ao caso Banco Master. A pesquisa ouviu presencialmente 2.004 eleitores entre 6 e 9 de março, com margem de erro de 3,5 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento mostra ainda que 72% dos eleitores consideram que o Supremo Tribunal Federal tem poder excessivo, enquanto 18% discordam. Outros 66% defendem votar em candidatos ao Senado comprometidos com a análise de pedidos de impeachment de ministros da Corte, ante 22% de discordância. Segundo a pesquisa, 59% avaliam o STF como alinhado ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto 26% discordam dessa percepção. Já 51% afirmam que a Corte foi fundamental para a manutenção da democracia no país, ao passo que 38% têm avaliação contrária.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Muito amém, pouca pergunta

 

A declaração acima de Julio César de Melo provoca de forma direta onde uma parcela considerável, convenientemente, evita abordar. À medida que fé e religião montam parceria no mesmo campo de influência, quase por tradição brota submissão em abundância e o cérebro entra em recesso. A frase não alivia, ironiza com precisão cruel. A religião, que promete luz, nem sempre tolera questionamentos, e a política, que no discurso serve ao povo, mas na prática muitas vezes serve a si mesma, quando se aproximam sem contenção, convertem influência em disciplina coletiva. Não é casual que líderes prefiram multidões emocionadas, a emoção dificilmente interrompe discursos com perguntas. O ponto mais incisivo da frase está justamente na escolha do termo “ignorantes”. Não se refere à ausência de instrução formal, mas à carência de pensamento crítico. Porque quem não questiona acaba entregando a própria autonomia ao discurso sagrado e à promessa eleitoral. Há séculos, altar e palanque ensaiam o mesmo dueto.  Um promete céu, o outro promete amanhã, ambos preferem adesão sem dúvidas incômodas.  Quanto ao autor, Julio César de Melo é lembrado sobretudo pelo impacto de frases contundentes e provocadoras, mais do que por uma biografia amplamente documentada. No fim, muda a voz no púlpito, muda o discurso no palanque, mas o espetáculo continua: crença, receio e aplausos bem ensaiados.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

domingo, 22 de março de 2026

E lá se vai o grande "Carijó "

 

Adversidades,  sofrimentos,  superações, emoções,   vitórias e fé marcaram  profundamente a passagem pela Terra de  Marcos Roberto da Silva, ou simplesmente "Carijó". Um ser humano que cumpriu com maestria sua missão e  demonstrou alegria,   simplicidade,  carisma,   amor.   Tive a honra de tê-lo como amigo e  aluno.  Guardarei com carinho a expressão em inglês que ele sempre dizia, quando encontrou comigo por muitas vezes nesta vida:  "Excellent'.   Meu querido Carijó,   vá em paz,  vá com os anjos! Você sempre estará presente em nossos corações.  A sua ausência será sentida pelos familiares e amigos,  mas o que construiu de bom ficará vivo em nossas memórias.  Obrigado por tudo,  nós te amamos. 

                     Sérgio Lopes Jornalista 


sexta-feira, 20 de março de 2026

Professor sangra, gabinete mija luxo

 

A frase acima revela uma contradição institucional difícil de ignorar. Enquanto um professor dá conta de quarenta crianças e ainda corrige provas em casa, um vereador frequentemente parece incapaz de respirar sem uma fileira de assessores ao redor. De um lado, o educador acumula preparo contínuo, responsabilidade formativa e desgaste diário, quase sempre sob remuneração aquém da relevância do trabalho. De outro, a nomeação de assessores frequentemente privilegia vínculos de confiança e articulação política mais do que exigências técnicas objetivas. O contraste dispensa comentários, formar gerações tem gasto modesto; viver à sombra do poder, curiosamente, devora recursos do contribuinte. A sala de aula cobra competência diária e responsabilidade constante; o gabinete, muitas vezes, transforma lealdade em cargo confortável e bem pago. Há professores virando a noite entre provas e boletos; assessores queimam café caro e salário público, brindando a incompetência como arte refinada. No fundo, educar dezenas custa quase nada; sustentar alguns por perto vale bolsos cheios e fãs idiotas. A lição é cruel e direta: enquanto um professor exausto carrega quarenta futuros adultos nas costas, vinte sortudos fazem mágica com um mandato, e ainda recebem tapinha nas costas.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Eles no luxo. Você no grito

 


Vamos falar de privilégios em alta definição. O primeiro ocupa o cargo mais cobiçado do Brasil atualmente. Tem prerrogativa legal para responder judicialmente em instâncias superiores , ou seja, nada de justiça comum para ele. Recebe salário definido em lei, mora no Palácio da Alvorada, passa fins de semana na Granja do Torto, voa nos jatos da Força Aérea para compromissos oficiais e ainda manuseia cartões corporativos, tudo conforme as normas da administração pública. Conduz o governo, sanciona leis e conta com estrutura oficial para apoiar suas decisões, mas, claro, ainda precisa respeitar os limites constitucionais..., tipo pedir licença ao Congresso para a maioria das coisas. Essas mordomias existem para garantir que ele possa trabalhar “tranquilo” e cumprir suas funções com a máxima eficácia. O segundo já pendurou o terno de presidente, mas não foi largado à própria sorte. Tem direito a segurança pessoal e equipe de apoio, dois veículos oficiais bancados pela Presidência, viagens custeadas pelo Estado com direito a passagens e diárias, tudo pago com o suor do contribuinte. Essa estrutura visa proteger e dar condições mínimas para que o ex-chefe continue circulando pelo palco político sem riscos. E adivinhem quem são esses senhores? O atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro. Curiosamente, ambos compartilham algumas “virtudes”: falar de forma direta, construir legiões de seguidores fanáticos, ostentar imagem pública, governar cercados de ruído e aliados problemáticos, aprofundar divisões sociais e políticas e, claro, provocar amor e ódio quase como uma religião. O líder do PT ainda tem seu histórico de prisão entre 7 de abril de 2018 e 8 de novembro de 2019 na Polícia Federal em Curitiba, com suas condenações da Lava Jato posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal por questões processuais. Já o ex-mandatário da República está preso desde 22 de novembro de 2025, cumprindo 27 anos por conspiração contra a transição democrática, acusado de tentar interferir no processo eleitoral que o sucederia. Diferenças? Claro que existem. Um vem do sindicalismo e defende maior atuação do Estado; o outro, militar e legislativo, priorizou pautas liberais. Um é de esquerda; o outro, de direita. Um fala em inclusão social; o outro grita por conservadorismo. Em resumo, Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro conhecem bem o truque, manter o público em guerra enquanto o circo jamais fecha as portas. Milhões de brasileiros se descabelam, gritam e se estraçalham por nada. Eles brindam, gargalham e aplaudem… O vazio que chamam de espetáculo. Nós? Barulho de plateia, útil durante o período que serve, invisível quando termina.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.