quarta-feira, 4 de março de 2026

Crachá de Ouro, Miolo de Isopor

 

“Não é o cargo que faz o líder, é a postura”. A frase é bonita no papel. Difícil é sustentar fora dele. Cargo é elevador social, sobe rápido, faz barulho e impressiona a vizinhança. Postura não, conduta é índole em pé, e isso não vem no kit admissão nem no contracheque. Crachá abre porta, caráter sustenta teto, o resto é altura sem base. Observe Jair Messias Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. O cargo é o mesmo, a cadeira é a mesma, a faixa também. O que muda é a forma de ocupar o espaço. O título diz “Presidente da República”, a liturgia depende do temperamento.  A grandeza? Essa não consta no decreto de posse, e, curiosamente, nunca aparece no Diário Oficial.  No mundo corporativo, o CEO de terno italiano palestra sobre “liderança humanizada” com microfone sem fio e agenda cheia de aplausos. Entre o café e a sobremesa, dispara a demissão em massa com a naturalidade de quem responde e-mail automático. No interior, longe do palco e do filtro corporativo, a gerente anônima segura meta impraticável, equipe exausta, crise permanente, sem hashtag, sem plateia, sem TED Talk. Um coleciona cargo e selfie, a outra entrega resultado e assume a conta. Ele performa liderança, ela pratica.  Na arte, alguns não pedem licença, fazem acontecer. Taylor Swift (cantora pop americana) regravou seu próprio catálogo e transformou contrato em troféu, sem esperar autorização, assinou a própria história. Enquanto isso, muitos “diretores criativos” vivem de reunião longa e ideia curta, chamando enrolação de processo. Uns deixam legado, outros só ata. No fim, cargo é só moldura dourada, bonita na vitrine, vazia no conteúdo. Obra? Nem sempre, às vezes, é só tela em branco. Cargo? Embalagem premium para miolo vazio. Conteúdo? Edição limitada, quando existe. Liderança não se mede pela sala cheia, mas pelo que sobra quando o aplauso termina. Plateia cheia inflama ego; silêncio expõe caráter. O resto? Só crachá turbinado com ego de balão, sobe rápido e estoura antes do café.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

3 comentários:

  1. Tá difícil até de comentar algo. Sistema hoje manda. Aplausos hoje são passageiros.

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  2. Tá difícil até de comentar algo. Sistema hoje manda. Aplausos hoje são passageiros.

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