terça-feira, 31 de março de 2026

O Peso Financeiro da Fé

 

Deus é tradicionalmente apresentado pelas religiões como criador do universo e senhor de todas as riquezas. Diante dessa compreensão, uma pergunta aparece com frequência no debate religioso. Por que determinadas vertentes doutrinarias preservam o dízimo de 10% como referência estável de compromisso financeiro entre os fiéis? O dízimo, tradicionalmente defendido como ato de fé e manutenção religiosa, tornou-se também um dos pilares financeiros de grandes estruturas evangélicas no Brasil. Em muitos templos, a contribuição é apresentada não apenas como gesto espiritual, mas como prova concreta de fidelidade, bênção futura e até proteção divina. Na prática, a lógica econômica é simples, quanto maior o número de fiéis convencidos de que doar é dever sagrado, maior a arrecadação. O problema aparece quando fé e pressão moral caminham juntas, especialmente entre pessoas de baixa renda, para quem 10% representa escolha entre devoção e orçamento doméstico. O fenômeno ganha força com o fanatismo religioso, muitos seguidores aceitam a contribuição sem questionar destino, transparência ou necessidade real dos recursos. Em determinados contextos, líderes religiosos conhecidos ampliaram o alcance do púlpito, converteram a mensagem em influência social e consolidaram igrejas como estruturas de grande porte, com presença constante nos meios de comunicação. Isso não significa que toda contribuição seja abuso. Igrejas têm despesas reais: aluguel, manutenção, projetos sociais, funcionários e atividades comunitárias. A questão surge quando a arrecadação vira centro da mensagem e a espiritualidade passa a ser medida pelo comprovante de pagamento. Entre a confiança espiritual do fiel e certos discursos religiosos, persiste uma coincidência notável: o infinito divino é frequentemente explicado ao lado de metas financeiras bastante terrenas.

                                                    Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Mil notificações, nenhuma consideração

 

No século XXI, quase ninguém admite, porém milhões de pessoas transformaram o celular em altar e a conveniência em critério de relacionamento. A pressa virou desculpa universal, falta tempo para responder uma mensagem, porém sobra disposição para consultar a tela a cada minuto, como se dali pudesse surgir a salvação do dia. A frase “Nunca confie em pessoas que levam horas para responder suas mensagens, mas, quando estão com você, olham o próprio telefone a cada segundo” sintetiza uma conduta já generalizada. Há quem ignore (comunicações, recados, contatos escritos, textos enviados, correspondências digitais, interações escritas) por dias e, no encontro presencial, mantenha o aparelho sob vigilância permanente, num zelo quase religioso. Quando vem a explicação: “não tive tempo para responder”, ela costuma soar tão convincente quanto discurso decorado de ocasião. Afinal, quem percorre redes sociais, acompanha notificações e desbloqueia o telefone incontáveis vezes ao dia dificilmente foi vencido por meio minuto de consideração. Na prática, não é falta de tempo; é seleção de interesse. Responde-se o conveniente, adia-se o restante e chama-se isso de rotina moderna. O silêncio seletivo ganhou verniz social, embora continue sendo apenas descaso com embalagem digital. No fim, certos indivíduos exibem um raro talento contemporâneo, estão sempre conectados para o mundo inteiro e curiosamente ausentes para quem realmente lhes dirige a palavra. Indiferença pura, discreta por fora, destrutiva por dentro.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Quando o recurso chega, já tem fila para posar

 


Segundo o Portal da Transparência, a emenda parlamentar é um instrumento usado pelo Congresso Nacional do Brasil durante a análise do orçamento anual para incluir, retirar ou alterar despesas propostas pelo Executivo. Na prática, deputados e senadores utilizam esse mecanismo para direcionar recursos públicos conforme compromissos assumidos com estados, municípios e instituições.  O debate envolve duas questões centrais. A primeira é avaliar se as emendas parlamentares beneficiam os municípios? Elas são uma importante fonte de recursos para cidades, sobretudo as de pequeno e médio porte, com baixa arrecadação própria. Financiam obras e serviços como escolas, unidades de saúde, pavimentação, saneamento, ambulâncias e revitalização de espaços públicos, ampliando a capacidade de investimento local. A segunda questão é se as emendas parlamentares servem apenas ao interesse público ou também alimentam vitrines eleitorais de vereadores, prefeitos, deputados e senadores? Em alguns casos, os recursos são destinados a bases eleitorais, ampliando a visibilidade de prefeitos e parlamentares. Com apoio de vereadores, deputados e senadores anunciam verbas e reforçam alianças políticas locais. Diante desse cenário, cabe ao eleitor avaliar se a destinação de emendas atende de forma direta às necessidades da população e às demandas locais ou se também é utilizada para ampliar visibilidade política. Em determinadas situações, o anúncio público de verbas e investimentos pode gerar reconhecimento eleitoral, especialmente em períodos próximos às eleições. Em tese, a emenda parlamentar deve atender ao interesse coletivo; na prática, porém, nem sempre escapa da tentação de virar vitrine política. Quando verba pública chega acompanhada de excesso de anúncio, a obra corre o risco de render mais capital eleitoral do que eficiência administrativa. Prefeitos, vereadores, deputados e senadores têm função pública, não direito autoral sobre recurso que já pertence ao contribuinte. Amigos, parentes e aliados partidários não deveriam ocupar lugar privilegiado nesse percurso. Ao cidadão, interessa menos a placa de autoria e mais o resultado concreto entregue à população

 

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

quinta-feira, 26 de março de 2026

O fundo eleitoral nunca entra em crise

 

O fundo eleitoral é o principal mecanismo público de financiamento das eleições no Brasil. Nesse contexto, o Tribunal Superior Eleitoral, por meio do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), ampliou sua relevância nas disputas eleitorais recentes. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, o fundo foi criado em 2017 pelo Congresso Nacional para compensar o fim das doações empresariais, proibidas por decisão do Supremo Tribunal Federal. A distribuição e o uso dos recursos seguem regras definidas pela Resolução TSE nº 23.605/2019. O FEFC financia exclusivamente campanhas eleitorais e é liberado em anos de eleições. Os recursos, definidos pela Lei Orçamentária Anual, são repassados pelo Tesouro Nacional ao Tribunal Superior Eleitoral, que os distribui aos partidos conforme o desempenho eleitoral anterior: 2% igualmente entre as legendas, 35% pelos votos para a Câmara dos Deputados, 48% pela bancada federal e 15% pela representação no Senado Federal. Ainda de acordo com o TSE, o fundo eleitoral passou de R$ 1,7 bilhão em 2018 para R$ 2,03 bilhões em 2020, alcançou R$ 4,9 bilhões em 2022 e 2024 e deve somar cerca de R$ 5 bilhões em 2026, conforme lei aprovada pelo Congresso Nacional. Para 2026, a minuta do FEFC prevê duas mudanças, a Secretaria de Planejamento, Orçamento, Finanças e Contabilidade ficará responsável pela distribuição dos recursos, e os partidos poderão ajustar os critérios de repasse até 30 de agosto do ano eleitoral, mediante justificativa. Diante dessa realidade, algumas constatações são inevitáveis: no país onde faltam recursos para água, esgoto, limpeza urbana e manejo de resíduos, setores essenciais como saúde, transporte, educação, lazer e cultura seguem submetidos à precariedade. A escassez persiste, a demanda cresce e a insuficiência administrativa continua convertendo direitos básicos em promessas recorrentes. Em síntese, para a população brasileira, a lição fiscal parece cruelmente objetiva: para água, saúde, transporte e educação, sempre se invoca escassez; para a engrenagem eleitoral, a restrição desaparece sem constrangimento. Manter quase R$ 5 bilhões nas eleições de 2026 apenas reforça um ritual conhecido: o básico espera, enquanto a política garante, antes de tudo, a própria sobrevivência.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

O Brasil não supera escândalos; apenas atualiza personagens

 


No Brasil, escândalo político raramente encerra uma etapa; quase sempre apenas desloca o foco para o episódio seguinte. Depois do Mensalão e da Operação Lava Jato, o caso Banco Master devolve ao debate público personagens e mecanismos que o país conhece há tempo: suspeitas recorrentes, articulações discretas e pressões exercidas sobre instituições. O episódio volta a aproximar mercado financeiro, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal... Uma combinação que, no histórico brasileiro, raramente atravessa períodos de serenidade. Os nomes se alteram, os discursos mudam de tom, mas a engrenagem de fundo permanece familiar.  O efeito de novas crises já não se restringe ao impacto imediato das manchetes. Cada desdobramento acrescenta desgaste institucional, amplia a cautela econômica e aprofunda uma sensação coletiva de exaustão que há muito deixou de depender de surpresa. Em parte, considerável da sociedade, consolidou-se uma desconfiança quase imediata, já não se discute a possibilidade de outro capítulo, apenas o momento em que ele inevitavelmente surgirá.  Combater corrupção, nesse cenário, deixou de representar apenas resposta jurídica ou exigência ética. Tornou-se também esforço de contenção de um desgaste mais profundo, o da confiança pública, um ativo cada vez mais raro e que, no Brasil, frequentemente reaparece fragilizado antes mesmo de conseguir se recompor.

 

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

terça-feira, 24 de março de 2026

Banco Master expõe tensão entre mercado, política e STF

 


O ambiente político nacional atravessa um período de forte desgaste. O caso do Banco Master demonstra um quadro de tensão entre poderes que ultrapassa o campo financeiro e alcança também o Judiciário e a política nacional. A investigação, envolvendo Polícia Federal, Ministério Público, Comissão de Valores Mobiliários e Supremo Tribunal Federal, levanta questões sobre governança corporativa, transparência e auditoria independente. O caso pressiona o Supremo Tribunal Federal e o Banco Central do Brasil após a prisão de Daniel Vorcaro e o veto à venda ao Banco de Brasília. A atuação em crédito consignado ao setor público e o uso de fundos públicos ampliam a gravidade do episódio. Diante desse cenário, duas questões se destacam: qual é a percepção do eleitor brasileiro sobre eventuais candidatos às eleições de outubro citados no caso Master? E como a população avalia a confiança na Suprema Corte? Uma pesquisa da Genial Investimentos em parceria com a Quaest, divulgada em 12 de março, indica que 49% dos eleitores brasileiros dizem não confiar no Supremo Tribunal Federal, enquanto 43% afirmam confiar na Corte. Em relação ao levantamento anterior, o índice de confiança recuou sete pontos percentuais, enquanto o de desconfiança subiu dois. No mesmo estudo, 38% afirmaram que evitariam votar em candidatos associados ao caso Banco Master. A pesquisa ouviu presencialmente 2.004 eleitores entre 6 e 9 de março, com margem de erro de 3,5 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento mostra ainda que 72% dos eleitores consideram que o Supremo Tribunal Federal tem poder excessivo, enquanto 18% discordam. Outros 66% defendem votar em candidatos ao Senado comprometidos com a análise de pedidos de impeachment de ministros da Corte, ante 22% de discordância. Segundo a pesquisa, 59% avaliam o STF como alinhado ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto 26% discordam dessa percepção. Já 51% afirmam que a Corte foi fundamental para a manutenção da democracia no país, ao passo que 38% têm avaliação contrária.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Muito amém, pouca pergunta

 

A declaração acima de Julio César de Melo provoca de forma direta onde uma parcela considerável, convenientemente, evita abordar. À medida que fé e religião montam parceria no mesmo campo de influência, quase por tradição brota submissão em abundância e o cérebro entra em recesso. A frase não alivia, ironiza com precisão cruel. A religião, que promete luz, nem sempre tolera questionamentos, e a política, que no discurso serve ao povo, mas na prática muitas vezes serve a si mesma, quando se aproximam sem contenção, convertem influência em disciplina coletiva. Não é casual que líderes prefiram multidões emocionadas, a emoção dificilmente interrompe discursos com perguntas. O ponto mais incisivo da frase está justamente na escolha do termo “ignorantes”. Não se refere à ausência de instrução formal, mas à carência de pensamento crítico. Porque quem não questiona acaba entregando a própria autonomia ao discurso sagrado e à promessa eleitoral. Há séculos, altar e palanque ensaiam o mesmo dueto.  Um promete céu, o outro promete amanhã, ambos preferem adesão sem dúvidas incômodas.  Quanto ao autor, Julio César de Melo é lembrado sobretudo pelo impacto de frases contundentes e provocadoras, mais do que por uma biografia amplamente documentada. No fim, muda a voz no púlpito, muda o discurso no palanque, mas o espetáculo continua: crença, receio e aplausos bem ensaiados.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

domingo, 22 de março de 2026

E lá se vai o grande "Carijó "

 

Adversidades,  sofrimentos,  superações, emoções,   vitórias e fé marcaram  profundamente a passagem pela Terra de  Marcos Roberto da Silva, ou simplesmente "Carijó". Um ser humano que cumpriu com maestria sua missão e  demonstrou alegria,   simplicidade,  carisma,   amor.   Tive a honra de tê-lo como amigo e  aluno.  Guardarei com carinho a expressão em inglês que ele sempre dizia, quando encontrou comigo por muitas vezes nesta vida:  "Excellent'.   Meu querido Carijó,   vá em paz,  vá com os anjos! Você sempre estará presente em nossos corações.  A sua ausência será sentida pelos familiares e amigos,  mas o que construiu de bom ficará vivo em nossas memórias.  Obrigado por tudo,  nós te amamos. 

                     Sérgio Lopes Jornalista 


sexta-feira, 20 de março de 2026

Professor sangra, gabinete mija luxo

 

A frase acima revela uma contradição institucional difícil de ignorar. Enquanto um professor dá conta de quarenta crianças e ainda corrige provas em casa, um vereador frequentemente parece incapaz de respirar sem uma fileira de assessores ao redor. De um lado, o educador acumula preparo contínuo, responsabilidade formativa e desgaste diário, quase sempre sob remuneração aquém da relevância do trabalho. De outro, a nomeação de assessores frequentemente privilegia vínculos de confiança e articulação política mais do que exigências técnicas objetivas. O contraste dispensa comentários, formar gerações tem gasto modesto; viver à sombra do poder, curiosamente, devora recursos do contribuinte. A sala de aula cobra competência diária e responsabilidade constante; o gabinete, muitas vezes, transforma lealdade em cargo confortável e bem pago. Há professores virando a noite entre provas e boletos; assessores queimam café caro e salário público, brindando a incompetência como arte refinada. No fundo, educar dezenas custa quase nada; sustentar alguns por perto vale bolsos cheios e fãs idiotas. A lição é cruel e direta: enquanto um professor exausto carrega quarenta futuros adultos nas costas, vinte sortudos fazem mágica com um mandato, e ainda recebem tapinha nas costas.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Eles no luxo. Você no grito

 


Vamos falar de privilégios em alta definição. O primeiro ocupa o cargo mais cobiçado do Brasil atualmente. Tem prerrogativa legal para responder judicialmente em instâncias superiores , ou seja, nada de justiça comum para ele. Recebe salário definido em lei, mora no Palácio da Alvorada, passa fins de semana na Granja do Torto, voa nos jatos da Força Aérea para compromissos oficiais e ainda manuseia cartões corporativos, tudo conforme as normas da administração pública. Conduz o governo, sanciona leis e conta com estrutura oficial para apoiar suas decisões, mas, claro, ainda precisa respeitar os limites constitucionais..., tipo pedir licença ao Congresso para a maioria das coisas. Essas mordomias existem para garantir que ele possa trabalhar “tranquilo” e cumprir suas funções com a máxima eficácia. O segundo já pendurou o terno de presidente, mas não foi largado à própria sorte. Tem direito a segurança pessoal e equipe de apoio, dois veículos oficiais bancados pela Presidência, viagens custeadas pelo Estado com direito a passagens e diárias, tudo pago com o suor do contribuinte. Essa estrutura visa proteger e dar condições mínimas para que o ex-chefe continue circulando pelo palco político sem riscos. E adivinhem quem são esses senhores? O atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro. Curiosamente, ambos compartilham algumas “virtudes”: falar de forma direta, construir legiões de seguidores fanáticos, ostentar imagem pública, governar cercados de ruído e aliados problemáticos, aprofundar divisões sociais e políticas e, claro, provocar amor e ódio quase como uma religião. O líder do PT ainda tem seu histórico de prisão entre 7 de abril de 2018 e 8 de novembro de 2019 na Polícia Federal em Curitiba, com suas condenações da Lava Jato posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal por questões processuais. Já o ex-mandatário da República está preso desde 22 de novembro de 2025, cumprindo 27 anos por conspiração contra a transição democrática, acusado de tentar interferir no processo eleitoral que o sucederia. Diferenças? Claro que existem. Um vem do sindicalismo e defende maior atuação do Estado; o outro, militar e legislativo, priorizou pautas liberais. Um é de esquerda; o outro, de direita. Um fala em inclusão social; o outro grita por conservadorismo. Em resumo, Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro conhecem bem o truque, manter o público em guerra enquanto o circo jamais fecha as portas. Milhões de brasileiros se descabelam, gritam e se estraçalham por nada. Eles brindam, gargalham e aplaudem… O vazio que chamam de espetáculo. Nós? Barulho de plateia, útil durante o período que serve, invisível quando termina.

Sérgio Lopes Jornalista

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quarta-feira, 18 de março de 2026

Heróis ou Filtros

 


A influência de alguns homens e mulheres está relacionada ao potencial de repercutir, formar opiniões, atitudes e escolhas de outras pessoas. A capacidade de influenciar fortalece-se por meio de comunicação clara, empatia, autoconhecimento e conexões verdadeiras. Mas, afinal de contas, o que é ser exemplo na sociedade? Ser referência em um país como o Brasil exige que modos de agir e comportamentos expressem, com coerência, os valores éticos que se pretende inspirar nos outros. Além disso, pressupõe ações compatíveis com os princípios que se deseja afirmar. Em termos filosóficos, essa postura associa-se à virtude, à autenticidade e à responsabilidade. Haja vista o impacto político, social, cultural e simbólico, destacam-se algumas personalidades influentes em nosso país: Dom Pedro II, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Tiradentes, Maria Quitéria, Chiquinha Gonzaga, Tarsila do Amaral, Carmen Miranda, Machado de Assis, Rui Barbosa, Santos Dumont e Oscar Niemeyer, entre outros. Esses ícones históricos se destacam por contribuições relevantes em áreas como política, cultura, ciência e sociedade. São reconhecidas por ideias, ações e legados que marcaram a nação ao longo do tempo. Contudo, no século XXI, em 2026, muitas figuras públicas refletem sobretudo os perfis mais populares nas redes sociais. Famosos e famosas tornam-se celebridades e passam a ocupar todos os espaços de visibilidade, da mídia tradicional à internet. Alguns nomes exaltados por milhões de brasileiros são: Neymar, Vinícius Júnior, Endrick, Virginia Fonseca, MC Daniel, Carlinhos Maia, Deolane Bezerra, Gabriel Barbosa, Bruna Marquezine, Anitta, Ludmilla, Gusttavo Lima e Lexa. Em conclusão, qual é a diferença entre as personalidades do passado que deixaram legado no país e as personalidades dos dias atuais? A disparidade é quase constrangedora. Várias estrelas de antigamente ajudaram a erguer a pátria; muitos do presente mal conseguem sustentar uma frase sem roteiro. Uns deixaram ideias, projetos, obras e impacto real; outros deixam bordões reciclados e vaidade em alta. Antes, influência exigia conteúdo. Nos dias atuais, basta boa iluminação e opinião apressada. Legado pede consistência; fama instantânea aceita vazio com filtro. Uns entraram para a história; outros dependem de não desaparecer do feed.

                                                              Sérgio Lopes Jornalista

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terça-feira, 17 de março de 2026

Breve Existência

 


A brevidade de nossa existência precisa ser valorizada diariamente e vivida de forma significativa. Aprender com os desafios, celebrar as alegrias e compreender que o tempo não retorna constitui uma das lições centrais da vida. Nossa passagem pela Terra é efêmera, e o curso inevitável do tempo reforça o valor de cada instante. Toda despedida carrega consigo a possibilidade de renovação. A vida é breve, mas certos momentos permanecem; por isso, cada minuto merece ser vivido com consciência, presença e aprendizado. A percepção da brevidade da vida também convida ao cuidado com os vínculos e à expressão dos afetos, sobretudo em um tempo marcado pela pressa e pela superficialidade das relações. Valorizar os laços afetivos e reconhecer a importância das experiências acumuladas permitem construir lembranças duradouras e atribuir sentido ao cotidiano. Por fim, a consciência da transitoriedade humana fortalece a busca pelo autoconhecimento e pelo amadurecimento. Cada desafio representa uma possibilidade de aprendizado, enquanto a compreensão da impermanência amplia a capacidade de enfrentar adversidades e perceber valor nos instantes que compõem a experiência humana.

Sérgio Lopes Jornalista

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segunda-feira, 16 de março de 2026

Craques na Arquibancada, Ausentes no País

 

“O Brasileiro mata e morre pelo seu time de futebol. Mas não luta pelo seu país, pela sua geração nem a de seus filhos”. A frase revela uma contraposição secular do Brasil. O envolvimento coletivo costuma se manifestar com mais intensidade quando há símbolos de identificação, cânticos compartilhados e um adversário claramente definido. Pelos times de futebol, muitos torcedores discutem, brigam, sacrificam madrugadas, recitam escalações de memória e protegem dirigentes com fervor quase cívico, como se a administração do clube tivesse peso de assunto de Estado e cada cartola ocupasse lugar de herói nacional. Já quando o assunto é o próprio país, o entusiasmo costuma perder volume, a voz baixa, o interesse oscila e a disposição para o debate raramente alcança o mesmo fervor reservado às arquibancadas. No estádio, um lateral mal cobrado vira crise de proporção histórica; fora dele, direitos, deveres e decisões públicas costumam passar quase sem plateia, o placar do país fica para depois do intervalo. Do árbitro se exige precisão absoluta sob gritos e indignação; da gestão política, muitas vezes aceita-se o erro repetido com uma paciência quase profissional na arte de se conformar. Um impedimento duvidoso costuma incendiar mais ânimos do que um orçamento público mal explicado, talvez, porque a linha do VAR pareça mais compreensível que certas planilhas oficiais. Há certo alívio em confiar expectativas a uma partida, naquele roteiro, ao menos existe vencedor, derrotado e prazo marcado para o sofrimento terminar no apito final. Na vida pública, o torneio corre sem tabela confiável, a regra muda durante o jogo e o resultado costuma aparecer decidido longe do público. A ironia é que muita gente recita tabela, saldo e retrospecto sem hesitar, mas tropeça quando precisa lembrar quem assina decisões em seu nome.  Vibra com cifras de contratações milionárias, mas esquece a educação, a saúde e o futuro...  Esses temas são relevantes demais para disputar atenção com a próxima rodada. No fundo, a nação parece dominar uma arte peculiar, fabrica torcedores incansáveis, mas ainda produz poucos interessados em participar do jogo fora das arquibancadas. Enfim, os principais estádios do Brasil lotam com facilidade admirável; a cidadania ainda joga diante de cadeiras vazias.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

sexta-feira, 13 de março de 2026

O País do Voto Barato

 

Milhões de eleitores brasileiros escolhem, nas eleições, os representantes dos Poderes Executivo e Legislativo. Entre os cargos em disputa estão Presidente da República, vice-presidente, Governador, vice-governador, Prefeito, vice-prefeito, Senador, Deputado Federal, Deputado Estadual e Vereador. Muitos eleitores anulam o voto, votam em branco ou simplesmente não comparecem às urnas. Embora seja um direito democrático, essas escolhas afetam o processo eleitoral e a qualidade da representação política. Em geral, refletem insatisfação com candidatos ou com o sistema. Na prática, porém, influenciam a legitimidade dos eleitos e o funcionamento da democracia. Além disso, uma parcela do eleitorado ainda vota sem consciência política. Em muitos casos, o voto é trocado por favores ou benefícios imediatos como:  saco de cimento, caminhão de areia, camisa de time de futebol, engradado de cerveja, churrasco, promessa de emprego ou dinheiro. Quem age assim pouco se preocupa com as questões sociais, econômicas e culturais do país. Em diversas situações, prevalecem a alienação, o fanatismo e o interesse imediato. Sem argumentos para sustentar ideias ou projetos, ignoram os erros de políticos corruptos, rejeitam opiniões divergentes e adotam discursos autoritários. O resultado é a incapacidade de diálogo e convivência democrática, cenário que pode abrir espaço para intolerância, conflitos e até violência.  Conter o extremismo político no Brasil exige mais do que discursos solenes sobre democracia. Requer algo mais raro, disposição para ouvir, questionar, conviver com ideias divergentes um exercício cada vez menos comum em tempos de política tratada como torcida organizada. Liberdade de expressão, diversidade de opiniões e respeito ao contraditório costumam aparecer em discursos oficiais. Na prática, porém, viram conceitos descartáveis sempre que contrariam a paixão partidária da vez. Sem educação política e senso crítico, o debate público se reduz a gritos, slogans e fidelidade cega a líderes. O resultado é previsível: menos reflexão, mais gritaria. A democracia continua de pé, cambaleando, mas ainda funcionando no modo improviso.

Sérgio Lopes Jornalista

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quinta-feira, 12 de março de 2026

Rocky Avisou. A Vida Confirmou

 


A citação acima do personagem Rocky Balboa, interpretado por Sylvester Stallone no filme "Rocky", tornou-se quase manual de sobrevivência emocional.  A vida impacta, atinge em cheio sem aviso, sem luva e sem juiz para separar a briga. Enquanto uns ficam pelo caminho, outros só estão atrasados na fila. No ano de 2026, A frase continua atual, a vida segue distribuindo porrada sem cerimônia. A diferença é que, fora do ringue de Rocky Balboa, ninguém escolhe quando começa a luta, ela apenas inicia, normalmente no pior momento. O cidadão brasileiro enfrenta o básico do cotidiano: inflação persistente, boletos que não dão trégua e escândalos políticos recorrentes. A carga tributária é alta, a qualidade da educação deixa a desejar, a saúde pública agoniza, o transporte piora e a violência assusta. No meio disso tudo, promessas de campanha somem rápido, reaparecem apenas no próximo palanque. Rocky tomava pancadas de um adversário, o cidadão comum sofre golpes de vários: governo, mercado, juros e algoritmo, às vezes até da própria esperança. No cinema, a multidão grita “levanta!”. Na vida real, quem aparece primeiro é a notificação do banco. A lição segue intacta, resistir. Em 2026, a frase ganhou um adendo irônico, seguir em frente deixou de ser heroísmo; virou sobrevivência. Prosseguimos, não por heroísmo nem por título de campeão. Nos filmes, a luta encerra com música de vitória. Na vida real, termina com o despertador tocando no dia seguinte.

                                                 Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.


quarta-feira, 11 de março de 2026

Entre Luiz Inácio Lula da Silva, Fábio Luís Lula da Silva e Flávio Dino: extratos voam, sigilos caem

 


Segundo o jornal Estado de Minas, a chamada Operação Sem Desconto, conduzida pela Polícia Federal do Brasil em parceria com a Controladoria-Geral da União, investiga um esquema que pode ter drenado cerca de R$ 6,3 bilhões de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social entre 2019 e 2024. O método era quase elegante na sua simplicidade, descontos associativos não autorizados aplicados diretamente em aposentadorias e pensões. As entidades prometiam convênios médicos, auxílio funerário e outros confortos de catálogo. Na prática, entregavam algo bem mais concreto, um pequeno desaparecimento mensal de dinheiro. O mecanismo que permite esse tipo de desconto existe desde 1991. Ficou décadas funcionando discretamente, até descobrir, por volta de 2019, que podia operar em escala industrial. Em 2022, o Congresso Nacional do Brasil ajudou involuntariamente no enredo ao eliminar a exigência de revalidação periódica das autorizações. Resultado, uma autorização que pode durar para sempre, o sonho de qualquer cobrador automático. No centro da investigação aparece Alessandro Stefanutto, então presidente do INSS, preso preventivamente em novembro do ano passado por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Ele é suspeito de manter em postos estratégicos servidores ligados ao grupo investigado, apesar de alertas internos. Stefanutto, como manda o roteiro, afirma não ter nada a ver com o assunto. Diante do escândalo, o Congresso reagiu da maneira tradicional, criou a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS. Em Brasília, quando o problema cresce demais, abre-se uma comissão. É quase um reflexo institucional. No meio da investigação surgiram extratos bancários de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Entre janeiro de 2022 e janeiro de 2026, foram registradas 1.531 transações, somando cerca de R$ 19,5 milhões. Parte do dinheiro circulou entre contas do próprio empresário, algo que, na contabilidade, pode ser estratégia financeira, ou apenas dinheiro passeando. Os documentos também mostram três transferências do presidente Lula ao filho, totalizando R$ 721 mil entre 2022 e 2023. A comissão aprovou a quebra de sigilo bancário e fiscal de Lulinha, transformando a sessão no que o Congresso faz melhor: gritos, acusações cruzadas e suspensão dos trabalhos. Pouco depois, o ministro Flávio Dino, também do STF, anulou a quebra de sigilo. Quando a decisão chegou, porém, os extratos já tinham circulado pela comissão e pelos jornais, porque, em Brasília, certas informações têm uma curiosa capacidade de vazar antes de serem oficialmente protegidas. O resultado é o de sempre, governo e oposição defendendo versões opostas da mesma história. Enquanto isso, a investigação continua, e o país aguarda o próximo capítulo, que provavelmente trará mais números, mais discursos e, como de costume, menos respostas do que perguntas.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.


terça-feira, 10 de março de 2026

O incômodo chamado inveja

 

A inveja é um estado emocional de ganância ou insatisfação pelo êxito, bens e recursos materiais de outros indivíduos.  Alguns atributos marcantes dos invejosos são: análises comparativas recorrentes, dificuldade em admitir o sucesso de terceiros, desvalorização das conquistas alheias, elogios seguidos de alfinetadas, interesse desmedido pela vida pessoal, necessidade de competir por tudo, prazer contido diante das dificuldades de outros, repentina mudança de atitude após o seu sucesso, busca contínua por reconhecimento. A inveja é uma emoção humana comum, porém, sem reconhecimento ou controle, pode provocar desgastes nas relações. Assim, os efeitos podem atingir tanto quem manifesta a inveja quanto quem é objeto dela. Por isso, é recomendável observar os sinais e agir de forma ponderada. Buscar o diálogo, oferecer apoio ou, quando necessário, estabelecer limites podem ser caminhos possíveis. O mais importante é preservar o próprio equilíbrio e cultivar relações baseadas no respeito, na admiração mútua e no crescimento conjunto.

                                                    Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Perdeu o cargo, perdeu os amigos

 

No cenário político do Brasil, em quase todos os casos, os vínculos de amizade autêntica são raridade quase folclórica. Com frequência, as relações sociais e políticas se organizam em torno de interesses bem calculados e mecanismos eficientes de influência. Basta o poder estar à mesa para surgir uma multidão de aliados, elogios entusiasmados e fidelidades com prazo de validade cuidadosamente escondido no rodapé. Perdido o poder, o roteiro muda com rapidez surpreendente. O “amigo” desaparece, o telefone silencia e a consideração evapora. A regra do jogo é simples e antiga, perdeu o cargo, ficou sem a plateia. A gratidão entra em modo de amnésia seletiva, a memória encurta e o bajulado de ontem passa a ser tratado como inconveniente de agenda. O retrato é conhecido na política brasileira e também na política mineira. Muitas pessoas acabam reduzidas a instrumentos descartáveis. Em vez de projeto coletivo, constrói-se domínio; no lugar da confiança, instala-se a velha e disciplinada submissão. E quem ainda acredita em amizade nesse ambiente logo descobre que, ali, a ingenuidade costuma sair bem mais cara do que qualquer campanha eleitoral. A engrenagem não cultiva sentimentalismo, recicla personagens com eficiência admirável e segue funcionando à base de interesses, vaidades infladas e ambições sempre bem abastecidas. Nesse jogo, vale quem manda. O cargo substitui o caráter, a amizade dura pouco e a traição deixa de ser acidente para virar método. Quando a serventia termina, o projeto de poder trata de arquivar o personagem com a mesma frieza com que antes o aplaudia. Talvez esteja na hora de parar de tratar políticos como heróis de novela e observá-los quando o poder acaba. É justamente nesse momento, quando os holofotes se apagam e os cargos mudam de dono, que se descobre quem tinha convicção e quem estava ali apenas pelo cargo, pelos favores e pela luz conveniente da vitrine pública. A política deveria servir ao público. Mas, na prática, muitas vezes virou território de caça para oportunistas bem treinados. Enquanto o poder continuar sendo tratado como troféu pessoal, e não como instrumento de serviço, a falsidade seguirá em alta, e a tal “amizade” continuará sendo apenas mais uma peça descartável na engrenagem do poder.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

sexta-feira, 6 de março de 2026

"Canetas emagrecedoras", o que é tratamento e o que é ilusão?

 


Os medicamentos injetáveis indicados para o tratamento da obesidade, frequentemente  chamados de “canetas emagrecedoras”, ganharam destaque no debate público nos últimos anos. Resultados clínicos considerados expressivos, somados à divulgação intensa nas redes sociais, ampliaram o alcance dessas terapias e consolidaram sua popularidade. A fama, porém, veio acompanhada de confusão. Não se trata de “milagre de verão”, mas de medicamentos incorporados a protocolos médicos voltados ao tratamento da obesidade, condição crônica reconhecida pela Organização Mundial da Saúde. Ainda assim, a doença continua sendo frequentemente reduzida, no imaginário social, a um suposto capricho estético. Entender o que essas medicações realmente são, para quem se destinam e quais são seus limites não é um detalhe técnico. É um requisito básico, nesse tema, informação separa tratamento sério de entusiasmo irresponsável. O rótulo popular usado para essas terapias pode funcionar como slogan, mas está longe de ser uma definição científica precisa. Para esclarecer dúvidas e evitar o uso inadequado, a endocrinologista Elaine Dias JK, PhD em endocrinologia pela Universidade de São Paulo, apresenta alguns mitos e verdades sobre essas medicações.

1 – Elas provocam emagrecimento rápido? Verdade.

Considera-se boa resposta quando o paciente perde mais de 0,5 kg por semana. Resultados abaixo desse ritmo podem levar o médico a rever a estratégia terapêutica.

2 – O resultado é permanente? Mito.

O medicamento atua enquanto está em uso. Sem mudanças no estilo de vida — como alimentação equilibrada, restrição calórica e atividade física regular — o risco de recuperação do peso é alto.

3 – São vendidas livremente nas farmácias? Mito.

Esses medicamentos exigem prescrição médica no Brasil, embora não sejam classificados como drogas de controle especial pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Mesmo quando adquiridos com receita simples, o acompanhamento médico é essencial para avaliar efeitos colaterais e possíveis doenças associadas.

4 – Qualquer pessoa pode usar? Mito.

Medicamentos como Ozempic são contraindicados em casos de: histórico de pancreatite, neoplasia endócrina múltipla tipo 2, carcinoma medular da tireoide, gravidez, amamentação.

5 – São o tratamento mais moderno para obesidade? Verdade.

Essas terapias pertencem a uma classe de medicamentos que imita a ação do hormônio intestinal GLP-1, responsável por regular fome e saciedade. Estudos clínicos demonstram eficácia tanto no tratamento da obesidade quanto do diabetes tipo 2. O estudo clínico SELECT, por exemplo, mostrou que pacientes obesos com doença cardiovascular que utilizaram Semaglutida semanal tiveram redução de 20% nos eventos cardíacos em comparação ao grupo placebo.

6 – Causam enjoo com frequência? Verdade.

Náusea é o efeito colateral mais comum. Também podem ocorrer: vômitos, diarreia, constipação, cansaço.  A intensidade costuma diminuir com ajuste de dose e acompanhamento médico.

7 – Melhoram a qualidade de vida? Verdade.

A perda de peso e o controle glicêmico podem melhorar: disposição, fadiga, qualidade do sono, autoestima.

8 – Eliminam gordura localizada? Mito.

O medicamento reduz a fome e aumenta a saciedade, favorecendo o emagrecimento global. Não há ação direta sobre gordura localizada.

9 – Reduzem a fome? Verdade.

A ação ocorre no centro regulador da fome no hipotálamo e também em áreas do sistema límbico relacionadas ao comportamento alimentar.

10 – Podem ser usadas por tempo prolongado? Verdade.

Em muitos casos, o uso contínuo é necessário, especialmente em pacientes com obesidade ou diabetes tipo 2, doenças crônicas que exigem tratamento prolongado.

11 – Funcionam durante a menopausa? Verdade.

A menopausa envolve alterações hormonais e metabólicas que favorecem o ganho de peso. Com acompanhamento médico adequado, o tratamento pode apresentar bons resultados nessa fase.

No fim, a conta é simples. A medicação ajuda, mas não faz milagre. Ela não corre na esteira, não recusa sobremesa e não substitui hábitos saudáveis. As diretrizes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia são claras, o tratamento da obesidade exige reeducação alimentar, atividade física e acompanhamento médico. O resto é expectativa demais para uma única caneta.

 

Sérgio Lopes Jornalista

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quinta-feira, 5 de março de 2026

Personagem famoso, caráter anônimo

 


Likes e curtidas não mensuram índole nem personalidade. No máximo, indicam o grau de dissimulação social. A proximidade elimina filtros, expõe o bruto, sem edição, sem legenda, sem atuação. O que aparece em casa não se publica, e, muitas vezes, nem se suporta assistir. A imagem exibida é construída para parecer coerente, ainda que distante da realidade. Se não sobrevive à realidade, não há inspiração, há estratégia. E das mais baratas, excesso de discurso, ausência de consistência. Criar personagem é simples, difícil é sustentar coerência quando a audiência se dispersa e resta o silêncio; aquele que revela o que se tenta esconder. A máscara não cai, ela escorrega. Nas atitudes, nas contradições, nas pequenas covardias que você acredita invisíveis. Spoiler estraga o prazer ou entrega o jogo? Sabiam, sempre souberam, só estavam assistindo, sem pressa, sem alarde. No fim, não é o ataque que derruba. É a incoerência que expõe. Ela corrói por dentro, devagar, até restar apenas um perfil bonito sustentando uma vida vazia.  Continue postando! Continue encenando! A mentira veste melhor do que a verdade. Portanto, relaxa: quando cair, você descobre. Nunca foi verdade, apenas pose.

Sérgio Lopes Jornalista

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quarta-feira, 4 de março de 2026

Crachá de Ouro, Miolo de Isopor

 

“Não é o cargo que faz o líder, é a postura”. A frase é bonita no papel. Difícil é sustentar fora dele. Cargo é elevador social, sobe rápido, faz barulho e impressiona a vizinhança. Postura não, conduta é índole em pé, e isso não vem no kit admissão nem no contracheque. Crachá abre porta, caráter sustenta teto, o resto é altura sem base. Observe Jair Messias Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. O cargo é o mesmo, a cadeira é a mesma, a faixa também. O que muda é a forma de ocupar o espaço. O título diz “Presidente da República”, a liturgia depende do temperamento.  A grandeza? Essa não consta no decreto de posse, e, curiosamente, nunca aparece no Diário Oficial.  No mundo corporativo, o CEO de terno italiano palestra sobre “liderança humanizada” com microfone sem fio e agenda cheia de aplausos. Entre o café e a sobremesa, dispara a demissão em massa com a naturalidade de quem responde e-mail automático. No interior, longe do palco e do filtro corporativo, a gerente anônima segura meta impraticável, equipe exausta, crise permanente, sem hashtag, sem plateia, sem TED Talk. Um coleciona cargo e selfie, a outra entrega resultado e assume a conta. Ele performa liderança, ela pratica.  Na arte, alguns não pedem licença, fazem acontecer. Taylor Swift (cantora pop americana) regravou seu próprio catálogo e transformou contrato em troféu, sem esperar autorização, assinou a própria história. Enquanto isso, muitos “diretores criativos” vivem de reunião longa e ideia curta, chamando enrolação de processo. Uns deixam legado, outros só ata. No fim, cargo é só moldura dourada, bonita na vitrine, vazia no conteúdo. Obra? Nem sempre, às vezes, é só tela em branco. Cargo? Embalagem premium para miolo vazio. Conteúdo? Edição limitada, quando existe. Liderança não se mede pela sala cheia, mas pelo que sobra quando o aplauso termina. Plateia cheia inflama ego; silêncio expõe caráter. O resto? Só crachá turbinado com ego de balão, sobe rápido e estoura antes do café.

Sérgio Lopes Jornalista

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terça-feira, 3 de março de 2026

Combustível em Guerra

 


Ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã já estão estrelando no preço do petróleo. O brasileiro? Esse sente antes mesmo de entender o motivo e chora depois. Os iluminados do mundo falam em “geopolítica complexa”, enquanto a gasolina dispara e a energia não perdoa. O Irã, um dos pesos-pesados do petróleo global, vê sua produção ameaçada, e qualquer risco faz o barril subir como foguete de sexta-feira à noite. O resultado? Combustíveis nas nuvens, transporte à beira do colapso e a inflação mostrando quem manda no bolso. O histórico de conflitos no Oriente Médio ensina, o efeito dominó chega antes do contracheque e sai depois da dignidade... E quem sente primeiro é a família brasileira, convocada a compreender o cenário internacional enquanto reorganiza o orçamento doméstico. O real perde força, o dólar dispara e produtos importados viram luxo. Para não ser esmagado sem misericórdia, dizem os sábios de plantão, é hora de cortar gasolina, lotar ônibus e encarar preços como prova de sobrevivência em reality show. O Irã lá longe, os mísseis no céu, e o brasileiro aqui, colecionando contas e frustração. A carteira que sangra primeiro, sem anestesia, sem licença e sem qualquer simpatia. Diplomacia elegante? Para o brasileiro comum, só sobra a conta, entregue com sorriso irônico.

Sérgio Lopes Jornalista

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segunda-feira, 2 de março de 2026

Bombas em Nome da Ordem

 


Em 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel recorreram ao recurso mais honesto da diplomacia contemporânea, bombardear. No comunicado, “necessidade estratégica”, no terreno, o de sempre.  De acordo com a mídia iraniana, no último sábado, foram 201 mortos e 747 feridos, suficientes para estatística, insuficientes para incômodo. O então presidente Donald Trump anunciou a morte de Ali Khamenei, confirmada horas depois. Décadas de poder encerradas com precisão técnica e indiferença burocrática. Teerã foi atingida, a resposta veio no automático: mísseis, retaliação, previsibilidade travestida de surpresa. Washington registrou “danos mínimos”, expressão que funciona melhor quando os mortos são do outro lado. O fechamento do Estreito de Ormuz redefiniu prioridades, petróleo interrompido mobiliza; vidas interrompidas se explicam. Negociações seguem em curso, bombas já estão em uso. A coerência virou peça decorativa, elimina-se o centro de poder e chama-se de operação. Atualiza-se o vocabulário para evitar rever o método. O resultado é o habitual?  Escalada, tensão contínua, conflito reciclado, o Oriente Médio não entra em crise, aprende a operar dentro dela. No resto do mundo, a dor vira gráfico, energia sobe, mercado suspira, discurso posa de firme sem sujar as mãos. Dentro do Irã, nada se perde, ataque de fora vira argumento oficial, o aperto ainda sai com cara de defesa. Artilharia não modera, educa pelo impacto, disciplina pelo medo e mantêm a máquina lucrando. Redige-se a nota, autoriza-se o disparo, o que sobra é silêncio. A crise muda de nome, o método permanece. Resultado: mortos. O que ficou não mente, só dói.

Sérgio Lopes Jornalista

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