terça-feira, 2 de junho de 2026

Lacração não resolve país nenhum

 


Em 2026, o Brasil parece ter convertido a opinião em palco de exposição e a lacração em mecanismo de prestígio. Discordar é apenas o começo. O essencial é transformar a divergência em espetáculo e colher os aplausos da plateia digital. Para os lacradores, não existem assuntos simples. Tudo vira causa urgente, toda crítica é ofensiva e todo debate termina com alguém ocupando o banco dos réus do julgamento público online. Raramente se busca convencer, o que se prioriza é a repercussão: curtidas, seguidores e sinais de aprovação moral. Nas redes sociais, a indignação ganhou dinâmica de consumo rápido, em que um escândalo substitui o outro em poucos instantes. Hoje há cancelamento. Amanhã, esquecimento. Depois, tudo recomeça como se nada tivesse acontecido. Pesquisas indicam que algoritmos tendem a amplificar conteúdos emocionais e polarizadores, elevando conflitos ao status de engajamento. A ironia está em ver a defesa da diversidade de pensamento coexistir, em alguns casos, com baixa tolerância ao pensamento divergente. O diálogo é defendido até surgir divergência; então, o debate tende a ser substituído por rótulos. Em um país de inflação persistente, insegurança e serviços públicos precários, parte da elite digital segue empenhada em batalhas simbólicas contra piadas, palavras e opiniões inconvenientes. Os problemas reais permanecem à espera, enquanto a lacração ocupa espaço prioritário no debate público. No Brasil de 2026, há quem supere questões e há quem se especialize em parecer que resolve. Resultados vêm de uns, posts vêm de outros. A diferença aparece quando a internet sai do ar e sobra apenas o que é concreto.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade

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