Em
2026, o Brasil parece ter convertido a opinião em palco de exposição e a
lacração em mecanismo de prestígio. Discordar é apenas o começo. O essencial é
transformar a divergência em espetáculo e colher os aplausos da plateia
digital. Para os lacradores, não existem assuntos simples. Tudo vira causa
urgente, toda crítica é ofensiva e todo debate termina com alguém ocupando o
banco dos réus do julgamento público online. Raramente se busca convencer, o
que se prioriza é a repercussão: curtidas, seguidores e sinais de aprovação
moral. Nas redes sociais, a indignação ganhou dinâmica de consumo rápido, em
que um escândalo substitui o outro em poucos instantes. Hoje há cancelamento.
Amanhã, esquecimento. Depois, tudo recomeça como se nada tivesse acontecido. Pesquisas
indicam que algoritmos tendem a amplificar conteúdos emocionais e
polarizadores, elevando conflitos ao status de engajamento. A ironia está em
ver a defesa da diversidade de pensamento coexistir, em alguns casos, com baixa
tolerância ao pensamento divergente. O diálogo é defendido até surgir
divergência; então, o debate tende a ser substituído por rótulos. Em um país de
inflação persistente, insegurança e serviços públicos precários, parte da elite
digital segue empenhada em batalhas simbólicas contra piadas, palavras e
opiniões inconvenientes. Os problemas reais permanecem à espera, enquanto a
lacração ocupa espaço prioritário no debate público. No Brasil de 2026, há quem
supere questões e há quem se especialize em parecer que resolve. Resultados vêm
de uns, posts vêm de outros. A diferença aparece quando a internet sai do ar e
sobra apenas o que é concreto.
Sérgio
Lopes Jornalista
Texto
publicado no Blog dos Letrados Desalienados
(blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de
resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo
Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e
liberdade
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