segunda-feira, 1 de junho de 2026

Eles vivem a festa. Você ajuda a bombar o evento

 


Na república digital brasileira, a realidade virou figurante do próprio tempo. O palco principal não muda, carros de luxo por hora, viagens “espontâneas” com patrocínio silencioso e uma felicidade tão constante que até a gravidade pede revisão. Do outro lado da tela, ônibus lotado, aluguel atrasado e almoço improvisado. Enquanto isso, a rolagem das plataformas finge que a vida é um comercial de luxo contínuo. E não raro, o público consome esse conteúdo como quem financia um sonho em 24 vezes, em negação elegante de que ele não cabe nem no saldo da conta nem no mapa previsível da própria rotina. Lógica simples e cruel,  o inalcançável engaja mais. O algoritmo não distingue realidade de encenação, apenas responde ao desejo. Influenciadores comercializam mais que produtos; propagam a ideia de que fracassar é apenas questão de mentalidade. Como se a pobreza fosse uma falha passageira de sistema, um erro a ser corrigido numa atualização, e não resultado de uma dinâmica estrutural, de longo prazo, de desigualdades constituídas historicamente. Ao mesmo tempo, as redes sociais seguem reluzindo: corpos perfeitos, rotinas impecáveis, cafés de R$ 40. Tudo embalado por mensagens motivacionais, como se a vida fosse um curso de empreendedorismo com trilha sonora constante. A ironia é que se produz mais conteúdo sobre “viver bem”, mas cada vez mais gente está mais distante disso. Não se trata de riqueza ou pobreza como moral; a vitrine permanente transforma desigualdade em entretenimento e frustração em engajamento. E o público assiste, deslizando o dedo pela tela, como quem insiste em bater numa porta que nunca vai abrir. Do outro lado, a festa segue fechada, bem iluminada e cuidadosamente indiferente a quem ficou de fora.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade