quarta-feira, 8 de abril de 2026

Deus não mora aqui, só o lucro

 


Jesus de Nazaré sempre foi descrito como pacífico, sossegado, tranquilo, bondoso.  Contudo a ira do personagem central dos evangelhos foi manifestada, quando “Jesus não abençoou os que comercializavam no templo. Ele virou as mesas.”  Uma postura contundente de Cristo, o equilíbrio foi sucedido por ação enérgica: estruturas ao chão, valores dispersos, vendedores afastados, indignação sem protocolo. O Redentor não agiu por descontrole, a reação moral ocorreu diante da transformação do sagrado em lógica de mercado. O que se convencionou chamar de “nervosismo de Jesus” não foi fruto de descarga emocional, surgiu do choque entre fé e interesse financeiro, entre oração e cálculo comercial. O templo, destinado ao recolhimento, havia se tornado espaço de comércio, onde devoção e interesse financeiro conviviam com naturalidade burocrática. O problema ia além da venda, a espiritualidade havia sido convertida em arrecadação. Séculos depois, a cena persiste, mudaram os meios, multiplicaram-se campanhas e promessas de prosperidade em linguagem financeira. Em certos ambientes, a fé adotou lógica de investimento... Contribui-se esperando retorno, a graça circula com preço implícito... Não se pede dinheiro, assina-se pacto; o discurso finge propósito, o caixa sabe a verdade. A lógica financeira é intacta, a retórica é polida. Em alguns casos, o altar se aproxima de práticas de mercado, onde a transcendência convive com foco no lucro. Com o dinheiro no centro, o sentido da fé se altera de forma silenciosa. Ao transformar o sagrado em promessa de vantagem pessoal, a devoção perde reflexão e passa a conviver com uma lógica implícita: a contribuição segue a lei do retorno. O detalhe desconfortável é que muitos citam Jesus Cisto, o alvo do templo? O sagrado virou mercadoria e detalhe irrelevante para todos. Prega-se renúncia em estrutura cara, humildade em ambiente tarifado e crítica ao materialismo com contabilidade em dia. Isso não apaga o trabalho sério de muitas comunidades, apesar disso revela que parte do meio religioso aprendeu a transformar emoção em arrecadação. Se o Nazareno cruzasse certos corredores hoje, talvez visse resquício de fé e balanço intacto.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade


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