segunda-feira, 18 de maio de 2026

Relação em Dívida

 

Há uma tendência antiga, apresentada como sabedoria contemporânea, de encarar vínculos humanos como um sistema de créditos e débitos afetivos, em que toda gentileza é vista como troca e toda recusa como ofensa. Um sistema que parece coerente quando parte de quem se entende como credor da vida alheia. A lógica é simples, transformar favores em uma espécie de reserva de reciprocidade futura. Quando o retorno falha, a compreensão cede lugar à indignação visível. O argumento da “ingratidão” surge no momento em que a ajuda é tratada como troca esperada, um conjunto de princípios aparentes, sustentado por memória seletiva e ego. Ajuda-se em público, cobra-se em silêncio e reage-se em privado. Em geral, há uma expectativa de retorno constante por gestos básicos de convivência, como se cada ato gerasse uma dívida implícita. O que se apresenta como benefício não é generosidade, é troca velada. Expectativas não assumidas, quando não atendidas, geram ressentimento como reação previsível. No fundo, relações são tratadas como planilha, cada gesto vira dívida, cada ausência, um calote emocional.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade

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