quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Nobreza de Fachada

 

Gregório de Matos, o Boca do Inferno, foi um dos principais poetas do Barroco brasileiro. Conhecido pela sátira mordaz, criticou autoridades, costumes, hipocrisias e vícios da sociedade de seu tempo. Sua língua afiada lhe rendeu o apelido que atravessou os séculos. 

Conselhos a qualquer tolo para parecer fidalgo, rico e discreto

Bote a sua casaca de veludo,

E seja capitão sequer dois dias,

Converse à porta de Domingos Dias,

Que pega fidalguia mais que tudo.

 

Seja um magano, um pícaro, um cornudo,

Vá a palácio, e após das cortesias.

Perca quanto ganhar nas mercancias,

E em que perca o alheio, esteja mudo.

 

Sempre se ande na caça e montaria,

Dê nova solução, novo epíteto,

E diga-o, sem propósito, à porfia;

 

Que em dizendo: “facção, pretexto, efecto”.

Será no entendimento da Bahia.

Mui fidalgo, mui rico e mui discreto.

Gregório de Matos

O poema ironiza quem tenta parecer nobre pela roupa, pelo discurso e pela ostentação. Gregório de Matos exagera de propósito para expor o esnobismo e a aparência vazia da elite de seu tempo.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/10/nobreza-de-fachada.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

2 comentários:

  1. Parabéns! Trazer de volta aquilo que estava perdido por alguns.

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  2. Parabéns! Trazer de volta aquilo que estava perdido por alguns.

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