quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Quando a Certeza Proíbe Pensar

 

Ariano Suassuna fez da sátira e do espírito crítico instrumentos para expor as contradições da sociedade. Sua reflexão continua atual, quando a paixão ultrapassa a razão, o primeiro a ser silenciado é o questionamento. Na política, há quem relativize os erros do próprio grupo e transforme qualquer opinião divergente em ameaça. Na religião, a fé pode virar instrumento de julgamento. No futebol, o rival deixa de ser adversário e passa a ser tratado como inimigo. Defender ideias, convicções ou paixões não é o problema. A questão começa quando a certeza fecha a porta ao diálogo e transforma quem pensa diferente em inimigo. A ironia é cruel... Quanto mais o fanatismo grita, menos espaço sobra para a razão. Suassuna mostrou que o humor também pode incomodar, provocar e fazer pensar. Por isso, sua crítica continua atual. No fundo, estamos defendendo nossas ideias, ou apenas procurando uma desculpa elegante para não pensar?

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/quando-certeza-proibe-pensar.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Malandragem ou Burrice?

 

A frase atribuída a Jorge Ben Jor ainda merece uma pergunta: quem ganha com a malandragem? Levar vantagem sobre alguém é esperteza? Mentir, burlar uma regra ou obter algo sem ter direito pode resolver uma situação. Mas o que acontece depois? A confiança diminui. A palavra perde valor. A convivência fica mais difícil. Honestidade não garante recompensa imediata. Constrói credibilidade. Então, qual é o sentido de enganar para obter benefício? Que tipo de inteligência depende do prejuízo alheio? Se uma vantagem exige a perda de outra pessoa, quem realmente ganhou? E você, chamaria isso de esperteza?

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/malandragem-ou-burrice.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Mario Quintana e a pressa do tempo

 


Mario Quintana foi poeta, escritor, tradutor e jornalista. Sua obra é marcada pela linguagem simples, pelo humor e pelo uso de metáforas para tratar de situações do cotidiano. Entre seus poemas mais conhecidos está “Seiscentos e Sessenta e Seis”, no qual o autor reflete, de forma breve e bem-humorada, sobre a passagem do tempo e o significado atribuído ao número seis.

Seiscentos e Sessenta e Seis (Mario Quintana)

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são 6 horas…

Quando se vê, já é 6.ª feira…

Quando se vê, passaram 60 anos…

Agora, é tarde demais para ser reprovado…

E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,

eu nem olhava o relógio.

seguia sempre, sempre em frente …

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/mario-quintana-e-pressa-do-tempo.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.


sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Quer Salvar a Humanidade, Mas Usa a Mãe de Empregada?

 

A frase de P. J. O’Rourke, “Todos querem salvar a Terra; ninguém quer ajudar a mãe a lavar a louça”, é atual e revela que há uma distância curiosa entre querer salvar o mundo no discurso e não conseguir nem ajudar a mãe dentro de casa. Nas redes, não faltam candidatos a salvadores do planeta. Dentro de casa, o salvador do planeta vira criança mimada: deixa louça, roupa e bagunça pelo caminho e espera que a mãe faça o serviço que ele não tem disposição para fazer. É curioso cobrar justiça do mundo enquanto se trata a própria mãe como empregada da casa. Querem consertar a sociedade, mas não conseguem sequer assumir a parte que lhes cabe dentro de casa. Responsabilidade não nasce de hashtag, postagem indignada ou discurso de rede social. Começa quando o militante de sofá larga o celular, levanta da cadeira e assume o que lhe cabe. Lavar a louça, guardar a própria bagunça e colaborar em casa não rende curtida, mas revela caráter. É fácil posar de cidadão consciente diante da tela; difícil é sair do conforto e fazer o básico sem precisar ser cobrado. A Terra pode esperar. A louça, não. E quem pretende salvar a humanidade, por que não começa tirando a própria mãe da escala de serviço?

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/quer-salvar-humanidade-mas-usa-mae-de.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Mais Vasto é o Coração

 


Carlos Drummond de Andrade foi um dos maiores poetas brasileiros do século XX. Nascido em 31 de outubro de 1902, em Itabira (MG), destacou-se também como cronista e jornalista. Estreou na literatura com Alguma Poesia, em 1930, e construiu uma obra marcada pela reflexão sobre o cotidiano, o amor, a memória, o tempo e a sociedade. Entre seus livros mais conhecidos estão Sentimento do Mundo e A Rosa do Povo. Morreu no Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1987, aos 84 anos. 

Poema de Sete Faces   Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto

Desses que vivem na sombra

Disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida

 

As casas espiam os homens

Que correm atrás de mulheres

A tarde talvez fosse azul

Não houvesse tantos desejos

 

O bonde passa cheio de pernas

Pernas brancas, pretas, amarelas

Para que tanta perna, meu Deus? Pergunta meu coração

Porém, meus olhos

Não perguntam nada

 

O homem atrás do bigode

É sério, simples e forte

Quase não conversa

Tem poucos, raros amigos

O homem atrás dos óculos e do bigode

 

Meu Deus, por que me abandonaste?

Se sabias que eu não era Deus

Se sabias que eu era fraco

 

Mundo, mundo, vasto mundo

Se eu me chamasse Raimundo

Seria uma rima, não seria uma solução

Mundo, mundo, vasto mundo

Mais vasto é meu coração

 

Eu não devia te dizer

Mas essa Lua

Mas esse conhaque

Botam a gente comovido como o diabo

 

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/mais-vasto-e-o-coracao.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Quem Gasta Não Paga?

 

Uma empresa que gasta mais do que arrecada acumula prejuízos, corta investimentos e pode quebrar. O governo também gasta mais do que arrecada. A diferença é que alguém paga a conta. Adivinhe quem?  O contribuinte. O rombo vira dívida. A dívida vira juros. E, cedo ou tarde, a conta aparece no bolso do brasileiro: em impostos, preços mais altos e menos dinheiro para quem trabalha. O governo chama de gasto público. O cidadão conhece pelo nome de conta para pagar. A empresa que não controla as despesas quebra. O governo aumenta a arrecadação. E o contribuinte? Trabalha mais, paga mais e recebe a conta. Déficit público. Bolso privado. No fim, a pergunta é simples...  Quem gasta não paga a conta, até quando quem trabalha vai aguentar pagar?

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/quem-gasta-nao-paga.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Disputando o Que Não Construiu



 

Brigar por herança é uma curiosa maneira de querer colher onde não se plantou. O patrimônio deixado por alguém nasceu de trabalho, riscos, escolhas e anos de esforço. Depois que a pessoa parte, aparecem os especialistas em dividir aquilo que não construíram. A herança pode ser um direito. Transformá-la em obsessão é outra história. Quer ter patrimônio? Trabalhe. Quer deixar algo para os seus? Construa. É fácil disputar o que os outros levaram uma vida inteira para construir. Difícil é construir algo que, um dia, faça alguém disputar o que você deixou. Quem passa a vida esperando a herança alheia está construindo o quê para chamar de seu?

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/disputando-o-que-nao-construiu.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

No Tribuna de Minas: “Continuem Divididos. Está Funcionando.”

 

Meu novo artigo foi publicado na Tribuna de Minas, em 18 de setembro. A partir de uma frase histórica de Ulysses Guimarães, o texto aborda um tema que continua atual: a divisão da sociedade, a participação popular e a necessidade de fiscalizar quem exerce o poder. Até que ponto a polarização interessa a quem governa? E o que acontece quando a indignação fica apenas nas redes sociais? Leia, reflita e tire suas próprias conclusões.

https://tribunademinas.com.br/opiniao/tribuna-livre/18-09-2026/continuem-divididos-esta-funcionando-perfeitamente.html


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A Escravidão Consentida

 

Nicolau Maquiavel, autor de “O Príncipe”, não tratava a política como um jogo de inocentes. Enxergava o poder como ele realmente é: uma luta permanente por domínio, interesses e controle. Ainda hoje, a pergunta permanece desconfortavelmente atual... Quando a corrupção é aceita, o abuso é tolerado e a lei se curva aos interesses de quem manda, quem ainda pode falar em liberdade? No atual cenário político, a divisão se aprofunda, as instituições perdem credibilidade e a desconfiança avança. A descrença no STF (Supremo Tribunal Federal) ganha força, enquanto a disputa entre os Poderes transforma a crise institucional em rotina. Maquiavel provavelmente reconheceria o cenário. Uma democracia não apodrece apenas pela ação dos corruptos, mas pela tolerância de quem os aceita, os defende e transforma a corrupção em rotina. A impunidade também se alimenta de cidadãos que trocam princípios por fanatismo e defendem o erro quando o criminoso veste a camisa do próprio lado. Para quem escolhe político como time, justiça virou questão de torcida. A escravidão moderna não precisa de correntes. Basta a submissão de quem troca a própria consciência pela defesa de quem está no poder. Maquiavel estudou os governantes. A democracia exige homens e mulheres dispostos a fazer o que eles mais temem: fiscalizar, questionar e impor limites. Quem exerce o poder se incomoda quando encontra uma sociedade que enxerga a manipulação, questiona discursos e se recusa a obedecer cegamente. Em conclusão, quem mantém o povo de joelhos: o governante que pisa no pescoço ou o eleitor que, por covardia e conveniência, segura a própria coleira e ainda chama isso de liberdade?

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/a-escravidao-consentida.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Todo Mundo Quer Curtida. Quem Vai Construir?

 

Todo mundo quer seguidores, curtidas e visualizações. Ao mesmo tempo, profissões essenciais enfrentam falta de trabalhadores. Na construção civil, faltam pedreiros qualificados. Quem ergue paredes e transforma projetos em realidade pode não aparecer nas redes sociais, mas está presente em cada tijolo assentado, cada casa construída e cada obra concluída. Seu trabalho transforma ideias em realidade onde pessoas moram, trabalham e vivem. O influenciador também tem seu valor. Pode informar, divertir, criar oportunidades e alcançar milhares de pessoas. O problema não está em aparecer. Está em uma sociedade que, às vezes, parece confundir visibilidade com reconhecimento. A ironia é que curtidas podem transformar alguém em fenômeno na internet, mas não levantam paredes. Assim como uma obra não depende de milhões de seguidores, a influência também não precisa de cimento para existir. Cada profissão tem seu valor. A questão é quando a sociedade passa a premiar quem aparece e esquecer quem faz. Se todos quiserem palco, quem vai ficar no canteiro de obras? Curtida pode fazer barulho. Mas parede continua esperando pedreiro.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/todo-mundo-quer-curtida-quem-vai.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Voto Não Tem Dono

 

Em 2026, cada eleitor terá novamente uma escolha diante da urna. O voto é pessoal, livre e secreto. Ninguém precisa da bênção do vizinho, da autorização do amigo, da opinião do influenciador ou da cartilha de grupo político. Discordar é democrático. Querer mandar no voto alheio, não. Defendem a liberdade até você pensar diferente. Depois, querem controlar até o que passa pela sua cabeça. Seu voto não tem dono, muito menos procuração para quem acredita ter poder sobre sua escolha. Se a decisão é pessoal, por que ainda há quem queira decidir por outros?

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/voto-nao-tem-dono.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Cadeira Não Dá Caráter

 

O cargo fica para trás, o dinheiro muda de dono, os títulos perdem a força. O que permanece é o que você realmente é. Basta ganhar poder, dinheiro ou alguns aplausos para alguém acreditar que virou importante. Assume uma função e já se imagina acima de todos. Alcança uma posição de destaque e passa a olhar os outros de cima. O problema começa quando alguém confunde ter importância com ser importante. Poder confere autoridade. Dinheiro abre portas. O prestígio impressiona. Nada disso fabrica caráter. O crachá pode até mandar. Só não consegue ensinar dignidade. E há quem passe a vida confundindo a cadeira que ocupa com o valor que possui. Ter impressiona. Ser revela. Quando o dinheiro, o poder e os títulos deixam de falar por você, o que resta?

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/cadeira-nao-da-carater.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Quando a Burrice Faz Quórum

 

Nelson Rodrigues constatou uma ideia que permanece atual: a inteligência nem sempre prevalece, mas a falta de senso crítico pode ganhar força quando se torna coletiva. A realidade oferece exemplos. Muitas pessoas opinam sobre temas que pouco conhecem. Nem sempre o conhecimento acompanha o poder de decidir. Há quem tenha poucas informações, mas muitas certezas. E, quando sua opinião encontra eco em um grupo, confunde consenso com razão. O problema não está apenas na falta de conhecimento. Está quando alguém encontra muitos que pensam como ele e passa a acreditar que a quantidade é prova de acerto. A democracia conta votos. Quantidade não é sinônimo de qualidade. Quando todos aplaudem o absurdo, quem ainda tem coragem de vaiar? Ou será que a sociedade já se acostumou tanto à mediocridade que passou a chamá-la de normalidade?

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/quando-burrice-faz-quorum.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Cabeça Vazia, Cargo Cheio. E Agora?

 

E, ao que tudo indica, tem neurônio fazendo hora extra.  Pena que sem resultado! Basta um cargo, meia dúzia de aplausos e pronto.  O sujeito se convence de que virou autoridade, porém só ganhou um crachá. De repente, o indivíduo descobre que nasceu para mandar. Estranho... Até ontem, ninguém tinha percebido. Confunde autoridade com superioridade, respeito com medo e liderança com submissão. Passa a distribuir ordens como quem oferece favores, e ainda espera aplausos pela generosidade de mandar. O problema não é o poder; é quando ele encontra uma cabeça vazia... Aí, a arrogância finalmente encontra onde morar. Porque, quando falta caráter, sobra cinismo. E ainda aparece quem confunda isso com autoridade. E quando falta competência, o personagem compensa no gogó e chama de autoridade o que não passa de mediocridade. Por isso, não foi o poder que subiu à cabeça, apenas encontrou espaço. E quando a cabeça vem vazia, qualquer cargo parece grande demais. Coincidência ou falta de conteúdo mesmo?

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/cabeca-vazia-cargo-cheio-e-agora.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Uai, Vêvei Tu Vida!

 


“Vêvei tu vida e deixa a do zôto em paz!”. A recomendação é simples, porém parece difícil de cumprir. Muitas pessoas não conseguem varrer a própria calçada, mas fiscaliza até a poeira da casa dos outros. Sabe quem trabalha, o que veste, quanto ganha, o que come, com quem namora e até como deveria viver. Enquanto isso, o próprio quintal está caindo aos pedaços. Mas deixa estar, cuidar da própria vida dá trabalho. Da vida alheia, basta abrir a boca. Nas redes sociais, então, tem fiscal para tudo. Palpita, julga, condena e, muitas vezes, nem sabe da história inteira. Fala como quem tem procuração para administrar a vida dos outros. Quando alguém reage, vem o velho “Calma, era só minha opinião”. Uai, pode ser, mas falar o que pensa não dá procuração para mandar na vida de ninguém. Talvez o incômodo seja mais simples, há quem não suporte ver os outros escolhendo, pensando e vivendo do jeito que bem entendem. Enfim, cuidar da própria vida dá trabalho. Já a dos outros é fácil: opinião, julgamento e fofoca. E ainda tem quem se ache dono da verdade. “Então, uai: vêvei tu vida!” Da minha, deixa que eu dou conta. Palpite?  Se eu quiser, eu peço.

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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Os Ratos, a Conta e a Culpa

 

A declaração de Millôr Fernandes é marcada pela ironia e expressa uma vivência que se repete na vida política do país. Quem é responsável pelo problema recorrentemente surge como refém das situações. A responsabilidade é transferida para o adversário, para a crise ou para problemas herdados. Por sua vez, os agentes responsáveis sempre encontram uma desculpa conveniente para sair de cena. A narrativa muda, os culpados mudam, a conta, porém, chega ao cidadão. É o conhecido jogo de mudar a versão para preservar os protagonistas. Quando o erro nunca tem dono, a impunidade já sabe onde morar. A sociedade que aceita qualquer explicação acaba tratando o absurdo como algo normal. A democracia não combina com memória conveniente, os governantes esquecem e os eleitores deveriam lembrar. Portanto, os ratos já foram identificados. E a conta, quem paga?

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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Parabéns, Vaca! Você Escolheu!

 

A vaca segue para o matadouro, convencida de que escolher o caminho é escolher o destino. À frente, dois corredores: direita ou esquerda? Escolha o caminho e descubra depois quem escolheu por você. De um lado, gritam pela democracia; do outro, bradam pela liberdade, mas ninguém explica por que os dois corredores terminam no mesmo lugar. E a vaca escolhe seu lado, orgulhosa da liberdade de decidir por qual corredor será conduzida ao mesmo destino. Enquanto isso, direita e esquerda disputam o corredor, enquanto o abate espera no fim. No Brasil polarizado, discordar virou guerra, questionar virou traição e pensar por conta própria virou ameaça aos dois lados. Cada lado vende sua verdade pronta, fabrica seu inimigo e apresenta seu salvador de plantão. Basta escolher uma bandeira para receber o kit completo: certezas prontas, inimigos oficiais e zero espaço para questionamentos. O eleitor vibra, compartilha, briga e comemora... E quanto mais se divide, mais fácil fica conduzi-lo. A política agradece, o rebanho discute o caminho, enquanto os condutores permanecem no controle. Direita ou esquerda? Escolha seu corredor, defenda sua bandeira e ataque o outro lado. No final de tudo, todos chegam ao mesmo lugar. Mas quem precisa pensar nisso, não é mesmo?

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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A Ressaca Vem. A Conta Também.

 

Amadureça para não confundir beber os fins de semana com curtir a vida. Consumir bebidas alcoólicas em ocasiões sociais, com moderação e com equilíbrio, é uma escolha. O problema começa quando a cerveja vira compromisso, a ressaca vira rotina e o salário desaparece antes de cumprir sua missão. Para juntar dinheiro, nunca sobra, mas para a ‘resenha’ de sexta, sábado e domingo, o dinheiro milagrosamente aparece.  E vem a velha desculpa: “a vida é curta”. Talvez por isso o salário também nunca chegue ao fim do mês. Não é preciso abandonar a diversão, o desafio pode estar em descobrir que aproveitar a vida também inclui não estar quebrado no dia seguinte. Em conclusão, de que adianta brindar ao presente se o futuro fica pagando a conta?

Sérgio Lopes Jornalista

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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O aplauso que desaparece

 

 

Pessoas próximas raramente admitem o que sentem. Preferem o silêncio, a ausência do like e o súbito desinteresse quando você começa a se destacar. É mais fácil retirar os elogios, diminuir a presença e desaparecer aos poucos. Na era das redes sociais, até a admiração parece ter limites. Enquanto alguns celebram suas conquistas, outros apenas observam de longe, esperando que seu brilho diminua. Nem todo silêncio é maturidade; às vezes, é ressentimento vestido de indiferença. Por isso, vale menos contar quem se manifesta e mais perceber quem permanece quando sua conquista deixa de ser conveniente. Há quem caminhe ao seu lado apenas enquanto você não ameaça seu próprio ego. Mas o tempo tem sua própria manchete, enquanto uns gastam energia esperando a queda alheia, outros seguem avançando. Em síntese, cada pessoa revela seu verdadeiro tamanho não pelo aplauso que oferece, mas pela capacidade de lidar com o crescimento de quem está ao seu lado.

Sérgio Lopes Jornalista

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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Burro de Coroa

 

A frase é irônica e retrata um comportamento cada vez mais comum nos dias de hoje: como a vaidade pode transformar uma simples demonstração de atenção em uma enganosa sensação de grandeza. Vivemos tempos em que curtidas, elogios, seguidores e aplausos virtuais alimentam o ego. Algumas pessoas medem seu valor pela atenção que recebem, confundindo popularidade com inteligência e exposição com relevância. No mundo das aparências, qualquer eco pode ganhar importância. O problema começa quando as críticas deixam de ser ouvidas e apenas as confirmações encontram espaço. A autocrítica diminui, enquanto a imagem criada pode se afastar cada vez mais da realidade. A frase é cruel justamente porque expõe essa contradição. Receber atenção não muda a natureza de ninguém. O burro pode ser tratado como leão, admirado como leão e até acreditar que é leão. Mas continuará sendo burro. Quando os elogios cessam e a atenção desaparece, o que realmente permanece? Talvez seja justamente nesse silêncio, longe dos aplausos e da aprovação alheia, que se descubra o verdadeiro tamanho de cada um. Afinal, somos aquilo que acreditamos ser ou apenas aquilo que os outros nos fizeram acreditar?

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terça-feira, 1 de setembro de 2026

Parabéns pelo Básico!

 

De acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tinha 12.348 favelas e comunidades urbanas, distribuídas por 656 municípios. Nesses territórios viviam 16,4 milhões de pessoas, cerca de 8,1% da população brasileira. Saneamento básico insuficiente, infraestrutura precária, acesso limitado a serviços públicos, dificuldades de mobilidade, moradias em áreas de risco e menor acesso a trabalho e renda estão entre os principais desafios enfrentados por essa população. Ainda assim, a expressão “A favela venceu” ganhou força e pode, de fato, representar orgulho, superação e conquistas pessoais ou coletivas. O problema surge quando a frase transforma a resistência à precariedade em símbolo de vitória coletiva, como se sobreviver à ausência de direitos fosse suficiente. Portanto, vencer não deveria significar apenas resistir, mas superar a precariedade e garantir direitos. Afinal, quando sobreviver ao básico vira conquista, talvez a sociedade esteja apenas aplaudindo aquilo que nunca deveria ter faltado.

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/09/parabens-pelo-basico.html), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.