segunda-feira, 27 de junho de 2022

Poema de Sete Faces

 

O Poema de Sete Faces foi divulgado no ano de 1930, no primeiro livro “Alguma Poesia” de Carlos Drummond de Andrade. O poema pode ser considerado apto a investigar sentimentos, comoções, sensações, vivências, pesares, desconsolos, aflições...

Poema de Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

 

As casas espiam os homens

que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.

 

O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.

 

O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode,

 

Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus

se sabias que eu era fraco.

 

Mundo mundo vasto mundo,

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

 

Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 24 de junho de 2022

O Rei do Cinema Mudo

No século passado, Charles Chaplin foi ícone do cinema mudo. Ele nasceu no ano de 1889, em Londres, na Inglaterra. Exerceu as profissões de músico, escritor, produtor, diretor, roteirista. Todavia ficou conhecido mundialmente, atuando como ator e comediante. Os seus personagens fizeram críticas à organização, à instituição, à indústria, à sociedade. Bem como, julgaram os regimes antidemocráticos (Nazismo e Fascismo). A carreira do ator inglês foi marcada por filmes como: Carlitos Repórter, Corridas de Automóveis para Meninos, O Vagabundo, O Garoto, Em Busca do Ouro, O Circo, Luzes da Cidade, Tempos Modernos, O Grande Ditador, Monsieur Verdoux. Ele faleceu em 1977.  Por fim, uma reflexão de Charles Chaplin a respeito da vida.

O Caminho da Vida

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos.

A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e morticínios.

Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria.

Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.

Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

Charles Chaplin

Sérgio Lopes - Jornalista, Professor, Especialista em (TV, Cinema e Mídias Digitais) e em Letras (Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa e Inglesa)

 


terça-feira, 31 de maio de 2022

Brasil

O poeta Oswald de Andrade,  primeira  fase do  Modernismo (1922 – 1930), buscou recordar o passado cultural. No poema "Brasil", Oswald fez referência as três raças formadora do  povo brasileiro. Ele associou registros linguísticos, expressões faladas e pessoas gramaticais incongruentes entre si. Por fim, relatou a criação do Brasil através de paródia e humor... Confira o poema!

 Brasil

O Zé Pereira chegou de caravela

E preguntou pro guarani da mata virgem

— Sois cristão?

— Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte

Teterê tetê Quizá Quizá Quecê!

Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!

O negro zonzo saído da fornalha

Tomou a palavra e respondeu

— Sim pela graça de Deus

Canhem Babá Canhem Babá Cum Cum!

E fizeram o Carnaval

Oswald de Andrade

Sérgio Lopes - Jornalista, Professor, Especialista em (TV, Cinema e Mídias Digitais) e em Letras (Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa e Inglesa)


segunda-feira, 30 de maio de 2022

Dom Quixote

 


A banda gaúcha Engenheiros do Hawaii foi um dos grandes ícones do rock nacional, da década de 1980. O vocalista Humberto Gessinger fez músicas marcadas pela crítica social, e algumas tornaram-se hinos. Já outras merecem uma análise mais profunda. A canção “Dom Quixote”, foi lançada no ano de 2003, e faz parte do álbum “Dançando no Campo Minado”. A letra refere ao personagem, o Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, do escritor espanhol Miguel de Cervantes. Na história de Cervantes, o protagonista da canção dos Engenheiros era um cavaleiro andante e considerado um bom homem. Todavia, Dom Quixote era um indivíduo que não regulava bem da cabeça... Ele passou a viver o seu próprio romance de cavalaria, pelo fato de ler vários livros a respeito do tema. Todavia, as fantasias de Dom Quixote eram em todo momento refutadas...  Diante disso, o líder dos Engenheiros sempre demonstrou conhecimento de filosofia e de literatura. A letra “Dom Quixote” nos faz refletir que não estamos vivendo em uma sociedade fantasiosa e idealista como do personagem de Miguel de Cervantes. Em síntese, podemos aceitar como verdadeiro, que não obstante de tudo, as causas valem a pena!!!

Dom Quixote

(Engenheiros do Hawaii – Humberto Gessinger)

Muito prazer, meu nome é otário

Vindo de outros tempos, mas sempre no horário

Peixe fora d'água, borboletas no aquário

Muito prazer, meu nome é otário

Na ponta dos cascos e fora do páreo

Puro sangue, puxando carroça

 

Um prazer cada vez mais raro

Aerodinâmica num tanque de guerra

Vaidades que a terra um dia há de comer

Ás de Espadas fora do baralho

Grandes negócios, pequeno empresário

Muito prazer, me chamam de otário

 

Por amor às causas perdidas

Tudo bem, até pode ser

Que os dragões sejam moinhos de vento

Tudo bem, seja o que for

Seja por amor às causas perdidas

 

Por amor às causas perdidas

Tudo bem, até pode ser

Que os dragões sejam moinhos de vento

Muito prazer, ao seu dispor

Se for por amor às causas perdidas

Por amor às causas perdidas

Sérgio Lopes - Jornalista, Professor, Especialista em (TV, Cinema e Mídias Digitais) e em Letras (Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa e Inglesa)

 


sexta-feira, 27 de maio de 2022

Verdades da Profissão de Professor

 O Reajuste de 33% para os servidores da Educação de Minas Gerais é oneroso para os cofres públicos. O gasto R$ 8,68 bilhões vai desequilibrar as contas do Estado. Contudo, a Suprema Corte aprovou o fundo eleitoral de R$ 4,9 bilhões. As legendas partidárias que disputarão as eleições de 2022, terão direito aos bilhões de reais... Já os professores não conseguiram o reajuste. Até quando os docentes serão desvalorizados no Brasil???

Verdades da Profissão de Professor

Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados. Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho.
A data é um convite para que todos, pais, alunos, sociedade, repensemos nossos papéis e nossas atitudes, pois com elas demonstramos o compromisso com a educação que queremos. Aos professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem “águias” e não apenas “galinhas”. Pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda.

Paulo Freire

Sérgio Lopes (Jornalista e Professor)

sábado, 30 de abril de 2022

Autopsicografia

O poeta português Fernando Pessoa escreveu a respeito da sua relação com a escrita, a poesia e o leitor.

Autopsicografia

O poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

 

E os que leem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

 

E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama coração.

 

Fernando Pessoa

 

 


quinta-feira, 21 de abril de 2022

Vício na Fala

 

O Brasil é marcado pelo preconceito, tais como: preconceito contra mulheres (machismo, sexismo), preconceito social (classismo), preconceito racial (racismo), preconceito contra pessoas trans (transfobia), preconceito contra homossexuais (homofobia), preconceito contra judeus (antissemitismo)... Contudo, um tipo de discriminação que ocorre cotidianamente, de norte a sul do brasil, o preconceito linguístico não é muito discutido... Afinal, o que é preconceito linguístico? Segundo o linguista e filólogo Marcos Bagno, é uma forma de discriminação com graves implicações sociais. Este preconceito nasce da ideia de que existe apenas uma língua correta, que é aquela baseada na gramática. Ainda de acordo com Bagno, não existem formas certas ou erradas de fazer uso do idioma. Muitos creem que o português falado nas regiões Sudeste e Sul do Brasil é “superior” ou “mais bem falado” que o português das regiões Nordeste, Norte, Centro-Oeste. Bem como, acreditam que as pessoas de condições financeiras mais favoráveis possuem um português mais brilhante e elaborado que pessoas das classes economicamente desfavorecidas. No século passado, Oswald de Andrade, consagrado escritor e poeta paulista da primeira fase do modernismo (1922 – 1930), relatou no poema “Vício na Fala” a pronúncia incorreta de alguns vocábulos reduzidos pelos falantes da língua portuguesa. De acordo com Oswald, “mio”, “mió”, “pió”, “teia”, “teiado”, de certo modo criam um “telhado”.  A norma culta é deixada de lado e as novas palavras fazem parte da realidade dos falantes. O poema de Oswald de Andrade pode ser considerado crítica contra o preconceito linguístico e desperta o senso crítico do leitor em relação à divergência entre as línguas. Por fim, em pleno século XXI, o preconceito linguístico é real na sociedade brasileira. Confira o poema “Vício na fala”!

Vício na Fala

Para dizerem milho dizem mio

Para melhor dizem mió

Para pior pió

Para telha dizem teia

Para telhado dizem teiado

E vão fazendo telhados.

Oswald de Andrade

Artigo elaborado por Sérgio Lopes - Jornalista, Professor, Especialista em (TV, Cinema e Mídias Digitais) e em Letras (Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa e Inglesa)