A
música sertaneja brasileira é um dos pilares da identidade cultural do país.
Surgida no meio rural, atravessou cercas, tanto reais quanto simbólicas, até
conquistar o espaço urbano. Onde se transformou, ampliou seu alcance e, em
parte, perdeu o chão que a sustentava. Retrata afetos, dificuldades e ausências
que marcam a experiência humana, preservando fragmentos do imaginário e das
vivências do interior do Brasil. Com versos diretos e de rápida assimilação,
construiu uma linguagem acessível, capaz de unir diferentes gerações. Essa
simplicidade, porém, não é ingênua: ao acompanhar as mudanças sociais e
econômicas do país, o sertanejo tornou-se peça fundamental da indústria
cultural de massas. Modernizou-se, expandiu seu público e, ao fazê-lo, negociou
suas próprias raízes. Esse processo cobra um preço, o campo deixa de ser apenas
vivência e passa a ser imagem, cenário, produto. A cultura, antes expressão
coletiva, transforma-se em marca e estratégia de mercado. O sertanejo já não
canta apenas o interior: ele o comercializa. Oscila, assim, entre preservar a
memória rural e explorar comercialmente essa mesma memória, refletindo tensões
que atravessam a vida nacional. Em última análise, a música sertaneja permanece
como tradição popular, produto de ampla circulação e espelho crítico das
contradições do Brasil, um gênero que conserva o passado ao mesmo tempo em que
negocia o presente.
Sérgio Lopes Jornalista
Texto
publicado no Blog dos Letrados Desalienados
(blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de
resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo
Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e
liberdade.

Nenhum comentário:
Postar um comentário