terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

A colonização inaugurou o roubo e ele nunca foi embora

 


De 1500 a 1822, o Brasil foi colônia de Portugal. Entre 1808 e 1821, sob o governo de Dom João VI, a corte portuguesa foi transferida para o Brasil, que passou a sediar o governo, resultando em transformações políticas, econômicas e sociais, como a abertura dos portos e a criação de instituições. Em 1822, o monarca português já havia retornado a Lisboa e deixou seu filho Dom Pedro I como príncipe regente no Brasil. Com a pressão pela volta de Pedro, o território nacional corria risco de perder autonomia ou cair sob controle instável. Diante de um cenário iminente de independência, Dom João VI teria dito a Dom Pedro I: “Pedro, se o Brasil se separar de Portugal, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para algum desses aventureiros”.  Entre 7 de setembro de 1822 e 24 de fevereiro de 2026, o nosso país passou por diferentes regimes: Império, República, fases democráticas e períodos autoritários, com lideranças e contextos diversos.  O afastamento de Portugal foi mais uma reconfiguração de poder do que um processo de emancipação popular. O estado brasileiro se constitui formalmente livre, porém sob condução das elites, limitando a participação popular. A independência manteve privilégios, sem ampliar de forma efetiva a participação democrática. Ao longo do tempo, observa-se a substituição de lideranças, enquanto as estruturas permanecem em grande medida inalteradas. A retórica se transforma, mas o poder permanece concentrado. A política brasileira apresenta alternância de lideranças, com relativa continuidade nas práticas. Entre 1822 e 2026, a autonomia anunciada permanece condicionada. A ideia sugere que mudanças são admitidas desde que preservem a influência das elites. Assim, a independência se consolida com limites institucionais e sociais. No fim, “aventureiro” é o vendedor de milagre vencido, grita mudança, entrega mesmice e ainda exige aplauso. Promete ruptura, pratica adaptação, sempre a favor de si. Democrático no palanque, seletivo no poder, troca o slogan, mantém o vício. A novidade é só maquiagem; o resto é o mesmo jogo, mais cínico.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.


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