sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Amanhã é outro dia

 


A banda carioca Biquíni cantou Amanhã é outro dia. Porém, muitos moradores da Zona da Mata Mineira (Juiz de Fora, Ubá, Matias Barbosa), o ontem ainda não terminou. A chuva destruiu bens, vivências, memórias. E, em alguns casos, pessoas. A queda de água acabou? Não sabemos, mas o prejuízo ficou. E o silêncio pesa mais, porque nele, ninguém se importa. O que fazer quando a casa vira lama? Esperar. Quando o pouco que havia some? Aceitar. Recomeçar não é escolha, é sentença. Do zero, sem poesia, só desgaste, dor e dúvida. Enquanto isso, o discurso escorre, fácil, inútil, tardio. A prevenção virou conversa fiada e não segura encosta, só sustenta desculpa. A tragédia não é apenas da chuva, decorre do abandono que se antecipa e se prolonga posteriormente.  Contudo, em meio aos danos, observa-se a atuação solidária entre as pessoas. É o vizinho que acolhe. É o desconhecido que contribui. É a sociedade que se mobiliza quando o poder público falha. A solidariedade mineira atua de forma discreta, mas ampara quem foi atingido. Não resolve todos os problemas, mas reduz o impacto da dor. Porque amanhã é outro dia. Mas, para quem perdeu tudo, o amanhã não traz esperança. Traz conta, barro e ausência. E, como sempre, a reconstrução começa sem o Estado e termina com ele pedindo crédito.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário