O
grande debate cultural do século XXI acontece às duas da manhã na internet, descobrir
quem desafina menos e chamar isso de talento musical. Há quatro opções. A
primeira é o Caramelo, um cão sem ambições fonográficas, qualidade que já o
coloca acima da concorrência humana. A segunda atende por Fiuk, herdeiro
oficial do sobrenome de Fábio Jr., prova viva de que genética virou currículo
no entretenimento nacional. Canta, atua, desfila e confirma que fama e talento
vocal raramente moram no mesmo endereço. A terceira figura é Manoel Gomes, o
homem que transformou um refrão repetido (“Caneta azul, azul caneta. Caneta azul
tá marcada com minhas letra”) à exaustão em patrimônio folclórico da internet
brasileira. Depois de memes, perdas financeiras e confusões empresariais, agora
ensaia migrar para a política, movimento natural num país onde viralização pesa
mais que preparo. Fecha a lista Juliette Freire, fenômeno digital fabricado
pelo algoritmo. Formada em Direito, converteu carisma em contratos, seguidores
e carreira musical..., área em que engajamento sobe ao palco enquanto a
afinação desaparece pelos fundos. A enquete ignora justamente o detalhe técnico
que a internet brasileira decidiu tratar como opcional: cantar bem. Os
candidatos humanos reforçam a tese de que desafino virou estilo, gritaria virou
identidade cultural e qualquer ruído minimamente viral já ganha contrato de
streaming. Sobra o Caramelo. Pelo menos ele late sem anunciar turnê, lançar
álbum conceitual ou chamar barulho de arte.
Sérgio
Lopes Jornalista
Texto
publicado no Blog dos Letrados Desalienados
(blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de
resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo
Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e
liberdade

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