segunda-feira, 25 de maio de 2026

O Caramelo ao Menos Não Cobra Ingresso

 

O grande debate cultural do século XXI acontece às duas da manhã na internet, descobrir quem desafina menos e chamar isso de talento musical. Há quatro opções. A primeira é o Caramelo, um cão sem ambições fonográficas, qualidade que já o coloca acima da concorrência humana. A segunda atende por Fiuk, herdeiro oficial do sobrenome de Fábio Jr., prova viva de que genética virou currículo no entretenimento nacional. Canta, atua, desfila e confirma que fama e talento vocal raramente moram no mesmo endereço. A terceira figura é Manoel Gomes, o homem que transformou um refrão repetido (“Caneta azul, azul caneta. Caneta azul tá marcada com minhas letra”) à exaustão em patrimônio folclórico da internet brasileira. Depois de memes, perdas financeiras e confusões empresariais, agora ensaia migrar para a política, movimento natural num país onde viralização pesa mais que preparo. Fecha a lista Juliette Freire, fenômeno digital fabricado pelo algoritmo. Formada em Direito, converteu carisma em contratos, seguidores e carreira musical..., área em que engajamento sobe ao palco enquanto a afinação desaparece pelos fundos. A enquete ignora justamente o detalhe técnico que a internet brasileira decidiu tratar como opcional: cantar bem. Os candidatos humanos reforçam a tese de que desafino virou estilo, gritaria virou identidade cultural e qualquer ruído minimamente viral já ganha contrato de streaming. Sobra o Caramelo. Pelo menos ele late sem anunciar turnê, lançar álbum conceitual ou chamar barulho de arte.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade

 


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