quinta-feira, 23 de abril de 2026

Família terceirizada

 

No cenário atual, observa-se que parte da população tem adotado condutas que destoam do habitual  e queda de reconhecimento de outros nas relações sociais. O Cláudio Duarte, pastor, conferencista, escritor, empresário e apresentador, é conhecido pelo uso de humor em palestras e pregações sobre temas religiosos, como sexualidade e casamento. Recentemente, Duarte fez uma declaração que gerou polêmica: “Temos uma geração estranha que põe os filhos na creche, os pais no asilo e vai passear com os cães na praça”. A afirmação caracteriza-se como uma análise de ordem ética. Porém, reduz uma circunstância complexa a uma interpretação simplificada. Colocar filhos em creches não caracteriza abandono; frequentemente decorre de necessidades econômicas. Encaminhar idosos a instituições pode garantir cuidados especializados, sem implicar negligência afetiva. Ainda assim, a frase evidencia um ponto sensível, há indícios de inversão de prioridades nas relações sociais. Verificam-se casos em que vínculos são delegados e o afeto passa a ser tratado como elemento secundário. O passeio com o cachorro vira o álibi perfeito, um símbolo conveniente para disfarçar prioridades bastante seletivas. Ironia? Discursa-se muito sobre “qualidade de vida”, enquanto a presença real se torna cada vez mais rara. A crítica funciona porque exagera e, só assim, consegue ser notada. No fundo, não envolve creche, asilo ou pets; revela uma ausência emocional disfarçada de rotina. No fim, se incomoda, talvez não seja pela frase, mas pelo que ela reflete.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

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