segunda-feira, 16 de março de 2026

Craques na Arquibancada, Ausentes no País

 

“O Brasileiro mata e morre pelo seu time de futebol. Mas não luta pelo seu país, pela sua geração nem a de seus filhos”. A frase revela uma contraposição secular do Brasil. O envolvimento coletivo costuma se manifestar com mais intensidade quando há símbolos de identificação, cânticos compartilhados e um adversário claramente definido. Pelos times de futebol, muitos torcedores discutem, brigam, sacrificam madrugadas, recitam escalações de memória e protegem dirigentes com fervor quase cívico, como se a administração do clube tivesse peso de assunto de Estado e cada cartola ocupasse lugar de herói nacional. Já quando o assunto é o próprio país, o entusiasmo costuma perder volume, a voz baixa, o interesse oscila e a disposição para o debate raramente alcança o mesmo fervor reservado às arquibancadas. No estádio, um lateral mal cobrado vira crise de proporção histórica; fora dele, direitos, deveres e decisões públicas costumam passar quase sem plateia, o placar do país fica para depois do intervalo. Do árbitro se exige precisão absoluta sob gritos e indignação; da gestão política, muitas vezes aceita-se o erro repetido com uma paciência quase profissional na arte de se conformar. Um impedimento duvidoso costuma incendiar mais ânimos do que um orçamento público mal explicado, talvez, porque a linha do VAR pareça mais compreensível que certas planilhas oficiais. Há certo alívio em confiar expectativas a uma partida, naquele roteiro, ao menos existe vencedor, derrotado e prazo marcado para o sofrimento terminar no apito final. Na vida pública, o torneio corre sem tabela confiável, a regra muda durante o jogo e o resultado costuma aparecer decidido longe do público. A ironia é que muita gente recita tabela, saldo e retrospecto sem hesitar, mas tropeça quando precisa lembrar quem assina decisões em seu nome.  Vibra com cifras de contratações milionárias, mas esquece a educação, a saúde e o futuro...  Esses temas são relevantes demais para disputar atenção com a próxima rodada. No fundo, a nação parece dominar uma arte peculiar, fabrica torcedores incansáveis, mas ainda produz poucos interessados em participar do jogo fora das arquibancadas. Enfim, os principais estádios do Brasil lotam com facilidade admirável; a cidadania ainda joga diante de cadeiras vazias.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

2 comentários: