segunda-feira, 9 de março de 2026

Perdeu o cargo, perdeu os amigos

 

No cenário político do Brasil, em quase todos os casos, os vínculos de amizade autêntica são raridade quase folclórica. Com frequência, as relações sociais e políticas se organizam em torno de interesses bem calculados e mecanismos eficientes de influência. Basta o poder estar à mesa para surgir uma multidão de aliados, elogios entusiasmados e fidelidades com prazo de validade cuidadosamente escondido no rodapé. Perdido o poder, o roteiro muda com rapidez surpreendente. O “amigo” desaparece, o telefone silencia e a consideração evapora. A regra do jogo é simples e antiga, perdeu o cargo, ficou sem a plateia. A gratidão entra em modo de amnésia seletiva, a memória encurta e o bajulado de ontem passa a ser tratado como inconveniente de agenda. O retrato é conhecido na política brasileira e também na política mineira. Muitas pessoas acabam reduzidas a instrumentos descartáveis. Em vez de projeto coletivo, constrói-se domínio; no lugar da confiança, instala-se a velha e disciplinada submissão. E quem ainda acredita em amizade nesse ambiente logo descobre que, ali, a ingenuidade costuma sair bem mais cara do que qualquer campanha eleitoral. A engrenagem não cultiva sentimentalismo, recicla personagens com eficiência admirável e segue funcionando à base de interesses, vaidades infladas e ambições sempre bem abastecidas. Nesse jogo, vale quem manda. O cargo substitui o caráter, a amizade dura pouco e a traição deixa de ser acidente para virar método. Quando a serventia termina, o projeto de poder trata de arquivar o personagem com a mesma frieza com que antes o aplaudia. Talvez esteja na hora de parar de tratar políticos como heróis de novela e observá-los quando o poder acaba. É justamente nesse momento, quando os holofotes se apagam e os cargos mudam de dono, que se descobre quem tinha convicção e quem estava ali apenas pelo cargo, pelos favores e pela luz conveniente da vitrine pública. A política deveria servir ao público. Mas, na prática, muitas vezes virou território de caça para oportunistas bem treinados. Enquanto o poder continuar sendo tratado como troféu pessoal, e não como instrumento de serviço, a falsidade seguirá em alta, e a tal “amizade” continuará sendo apenas mais uma peça descartável na engrenagem do poder.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

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