É
frequente ver como muitas pessoas finalmente se tornam “incríveis” depois que
morrem. Em vida, ganham indiferença educada, apoio protocolar e afetos
distribuídos na exata medida para não criar obrigação nenhuma. O enterro começa
e, de repente, nasce uma multidão de fãs que em vida mal entregava um “como
você está?”. Ou seja, os peritos em
elogios tardios, sempre generosos quando já não existe tempo para reparar a
omissão. O roteiro é sempre o mesmo: “era especial”, “ninguém fazia igual” e
outras descobertas feitas no velório.
Homenagens
calorosas vêm justamente de quem tratava a pessoa como opcional até o caixão
entrar em cena. Nesse espetáculo mórbido, muita gente transforma a própria
omissão em cena dramática e ainda espera aplauso pela atuação. Existe certa
ironia social nisso tudo. O elogio virou herança bloqueada, liberada só quando
o destinatário já não pode ouvir, responder ou se envaidecer. Flores aparecem
aos montes no funeral justamente quando já não servem para nada além da
fotografia da falsa sensibilidade. Afinal, por que tanta admiração só floresce
quando não existe mais convivência, inveja ou risco de reciprocidade?
Sérgio
Lopes Jornalista
Texto
publicado no Blog dos Letrados Desalienados
(blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de
resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo
Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e
liberdade

Eu vou em velório, pela família. O morto nada sabe nada vê. Elogiar pessoa que morre, tinha que ser muito íntima dela. Perdi minha irmã faz 9 dias. Eramos íntimas. Agora tem meus sobrinhos eled que tenho que abraçar e amar.
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