quarta-feira, 27 de maio de 2026

Fãs de Velório

 

É frequente ver como muitas pessoas finalmente se tornam “incríveis” depois que morrem. Em vida, ganham indiferença educada, apoio protocolar e afetos distribuídos na exata medida para não criar obrigação nenhuma. O enterro começa e, de repente, nasce uma multidão de fãs que em vida mal entregava um “como você está?”.  Ou seja, os peritos em elogios tardios, sempre generosos quando já não existe tempo para reparar a omissão. O roteiro é sempre o mesmo: “era especial”, “ninguém fazia igual” e outras descobertas feitas no velório.  Homenagens calorosas vêm justamente de quem tratava a pessoa como opcional até o caixão entrar em cena. Nesse espetáculo mórbido, muita gente transforma a própria omissão em cena dramática e ainda espera aplauso pela atuação. Existe certa ironia social nisso tudo. O elogio virou herança bloqueada, liberada só quando o destinatário já não pode ouvir, responder ou se envaidecer. Flores aparecem aos montes no funeral justamente quando já não servem para nada além da fotografia da falsa sensibilidade. Afinal, por que tanta admiração só floresce quando não existe mais convivência, inveja ou risco de reciprocidade?

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade

Um comentário:

  1. Eu vou em velório, pela família. O morto nada sabe nada vê. Elogiar pessoa que morre, tinha que ser muito íntima dela. Perdi minha irmã faz 9 dias. Eramos íntimas. Agora tem meus sobrinhos eled que tenho que abraçar e amar.

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