sexta-feira, 20 de março de 2026

Professor sangra, gabinete mija luxo

 

A frase acima revela uma contradição institucional difícil de ignorar. Enquanto um professor dá conta de quarenta crianças e ainda corrige provas em casa, um vereador frequentemente parece incapaz de respirar sem uma fileira de assessores ao redor. De um lado, o educador acumula preparo contínuo, responsabilidade formativa e desgaste diário, quase sempre sob remuneração aquém da relevância do trabalho. De outro, a nomeação de assessores frequentemente privilegia vínculos de confiança e articulação política mais do que exigências técnicas objetivas. O contraste dispensa comentários, formar gerações tem gasto modesto; viver à sombra do poder, curiosamente, devora recursos do contribuinte. A sala de aula cobra competência diária e responsabilidade constante; o gabinete, muitas vezes, transforma lealdade em cargo confortável e bem pago. Há professores virando a noite entre provas e boletos; assessores queimam café caro e salário público, brindando a incompetência como arte refinada. No fundo, educar dezenas custa quase nada; sustentar alguns por perto vale bolsos cheios e fãs idiotas. A lição é cruel e direta: enquanto um professor exausto carrega quarenta futuros adultos nas costas, vinte sortudos fazem mágica com um mandato, e ainda recebem tapinha nas costas.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário