A cada
Copa do Mundo, o Brasil encena a mesma peça. De um lado, milhões de pessoas
lidam com salários insuficientes, dívidas, serviços públicos precários e um
custo de vida cada vez mais alto. Do outro, a CBF e a FIFA comandam um
espetáculo bilionário que monopoliza a atenção nacional. Por algumas semanas, a
inflação, a violência e a falta de perspectivas saem de cena. Entram em campo
as escalações, os palpites e as discussões apaixonadas sobre futebol. O país da
desigualdade veste a camisa da seleção e concede férias temporárias ao senso
crítico. Enquanto isso, jogadores que acumulam fortunas inimagináveis para a
maioria da população são elevados à condição de heróis nacionais. A distância
entre a realidade das arquibancadas e a dos gramados nunca foi tão grande, mas
raramente isso parece importar. A Copa não reduz o preço dos alimentos, não
melhora hospitais nem cria empregos. Seu principal produto continua sendo
outro: a capacidade de transformar problemas reais em ruído de fundo. Quando a
bola começa a rolar, milhões acompanham o placar. Poucos observam quem continua
vencendo fora dele.
Sérgio
Lopes Jornalista
Texto
publicado no Blog dos Letrados Desalienados
(blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de
resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo
Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e
liberdade.
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