sexta-feira, 6 de março de 2026

"Canetas emagrecedoras", o que é tratamento e o que é ilusão?

 


Os medicamentos injetáveis indicados para o tratamento da obesidade, frequentemente  chamados de “canetas emagrecedoras”, ganharam destaque no debate público nos últimos anos. Resultados clínicos considerados expressivos, somados à divulgação intensa nas redes sociais, ampliaram o alcance dessas terapias e consolidaram sua popularidade. A fama, porém, veio acompanhada de confusão. Não se trata de “milagre de verão”, mas de medicamentos incorporados a protocolos médicos voltados ao tratamento da obesidade, condição crônica reconhecida pela Organização Mundial da Saúde. Ainda assim, a doença continua sendo frequentemente reduzida, no imaginário social, a um suposto capricho estético. Entender o que essas medicações realmente são, para quem se destinam e quais são seus limites não é um detalhe técnico. É um requisito básico, nesse tema, informação separa tratamento sério de entusiasmo irresponsável. O rótulo popular usado para essas terapias pode funcionar como slogan, mas está longe de ser uma definição científica precisa. Para esclarecer dúvidas e evitar o uso inadequado, a endocrinologista Elaine Dias JK, PhD em endocrinologia pela Universidade de São Paulo, apresenta alguns mitos e verdades sobre essas medicações.

1 – Elas provocam emagrecimento rápido? Verdade.

Considera-se boa resposta quando o paciente perde mais de 0,5 kg por semana. Resultados abaixo desse ritmo podem levar o médico a rever a estratégia terapêutica.

2 – O resultado é permanente? Mito.

O medicamento atua enquanto está em uso. Sem mudanças no estilo de vida — como alimentação equilibrada, restrição calórica e atividade física regular — o risco de recuperação do peso é alto.

3 – São vendidas livremente nas farmácias? Mito.

Esses medicamentos exigem prescrição médica no Brasil, embora não sejam classificados como drogas de controle especial pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Mesmo quando adquiridos com receita simples, o acompanhamento médico é essencial para avaliar efeitos colaterais e possíveis doenças associadas.

4 – Qualquer pessoa pode usar? Mito.

Medicamentos como Ozempic são contraindicados em casos de: histórico de pancreatite, neoplasia endócrina múltipla tipo 2, carcinoma medular da tireoide, gravidez, amamentação.

5 – São o tratamento mais moderno para obesidade? Verdade.

Essas terapias pertencem a uma classe de medicamentos que imita a ação do hormônio intestinal GLP-1, responsável por regular fome e saciedade. Estudos clínicos demonstram eficácia tanto no tratamento da obesidade quanto do diabetes tipo 2. O estudo clínico SELECT, por exemplo, mostrou que pacientes obesos com doença cardiovascular que utilizaram Semaglutida semanal tiveram redução de 20% nos eventos cardíacos em comparação ao grupo placebo.

6 – Causam enjoo com frequência? Verdade.

Náusea é o efeito colateral mais comum. Também podem ocorrer: vômitos, diarreia, constipação, cansaço.  A intensidade costuma diminuir com ajuste de dose e acompanhamento médico.

7 – Melhoram a qualidade de vida? Verdade.

A perda de peso e o controle glicêmico podem melhorar: disposição, fadiga, qualidade do sono, autoestima.

8 – Eliminam gordura localizada? Mito.

O medicamento reduz a fome e aumenta a saciedade, favorecendo o emagrecimento global. Não há ação direta sobre gordura localizada.

9 – Reduzem a fome? Verdade.

A ação ocorre no centro regulador da fome no hipotálamo e também em áreas do sistema límbico relacionadas ao comportamento alimentar.

10 – Podem ser usadas por tempo prolongado? Verdade.

Em muitos casos, o uso contínuo é necessário, especialmente em pacientes com obesidade ou diabetes tipo 2, doenças crônicas que exigem tratamento prolongado.

11 – Funcionam durante a menopausa? Verdade.

A menopausa envolve alterações hormonais e metabólicas que favorecem o ganho de peso. Com acompanhamento médico adequado, o tratamento pode apresentar bons resultados nessa fase.

No fim, a conta é simples. A medicação ajuda, mas não faz milagre. Ela não corre na esteira, não recusa sobremesa e não substitui hábitos saudáveis. As diretrizes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia são claras, o tratamento da obesidade exige reeducação alimentar, atividade física e acompanhamento médico. O resto é expectativa demais para uma única caneta.

 

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

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