No século XXI, quase ninguém admite, porém
milhões de pessoas transformaram o celular em altar e a conveniência em
critério de relacionamento. A pressa virou desculpa universal, falta tempo para
responder uma mensagem, porém sobra disposição para consultar a tela a cada
minuto, como se dali pudesse surgir a salvação do dia. A frase “Nunca confie em
pessoas que levam horas para responder suas mensagens, mas, quando estão com
você, olham o próprio telefone a cada segundo” sintetiza uma conduta já generalizada.
Há quem ignore (comunicações, recados, contatos escritos, textos enviados, correspondências
digitais, interações escritas) por dias e, no encontro presencial, mantenha o
aparelho sob vigilância permanente, num zelo quase religioso. Quando vem a
explicação: “não tive tempo para responder”, ela costuma soar tão convincente
quanto discurso decorado de ocasião. Afinal, quem percorre redes sociais,
acompanha notificações e desbloqueia o telefone incontáveis vezes ao dia
dificilmente foi vencido por meio minuto de consideração. Na prática, não é falta
de tempo; é seleção de interesse. Responde-se o conveniente, adia-se o restante
e chama-se isso de rotina moderna. O silêncio seletivo ganhou verniz social,
embora continue sendo apenas descaso com embalagem digital. No fim, certos
indivíduos exibem um raro talento contemporâneo, estão sempre conectados para o
mundo inteiro e curiosamente ausentes para quem realmente lhes dirige a
palavra. Indiferença pura, discreta por fora, destrutiva por dentro.
Sérgio Lopes Jornalista
Texto
publicado no Blog dos Letrados Desalienados
(blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de
resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo
Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e
liberdade.

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