segunda-feira, 30 de março de 2026

Mil notificações, nenhuma consideração

 

No século XXI, quase ninguém admite, porém milhões de pessoas transformaram o celular em altar e a conveniência em critério de relacionamento. A pressa virou desculpa universal, falta tempo para responder uma mensagem, porém sobra disposição para consultar a tela a cada minuto, como se dali pudesse surgir a salvação do dia. A frase “Nunca confie em pessoas que levam horas para responder suas mensagens, mas, quando estão com você, olham o próprio telefone a cada segundo” sintetiza uma conduta já generalizada. Há quem ignore (comunicações, recados, contatos escritos, textos enviados, correspondências digitais, interações escritas) por dias e, no encontro presencial, mantenha o aparelho sob vigilância permanente, num zelo quase religioso. Quando vem a explicação: “não tive tempo para responder”, ela costuma soar tão convincente quanto discurso decorado de ocasião. Afinal, quem percorre redes sociais, acompanha notificações e desbloqueia o telefone incontáveis vezes ao dia dificilmente foi vencido por meio minuto de consideração. Na prática, não é falta de tempo; é seleção de interesse. Responde-se o conveniente, adia-se o restante e chama-se isso de rotina moderna. O silêncio seletivo ganhou verniz social, embora continue sendo apenas descaso com embalagem digital. No fim, certos indivíduos exibem um raro talento contemporâneo, estão sempre conectados para o mundo inteiro e curiosamente ausentes para quem realmente lhes dirige a palavra. Indiferença pura, discreta por fora, destrutiva por dentro.

Sérgio Lopes Jornalista

Texto publicado no Blog dos Letrados Desalienados (blogdosletradosdesalienados.blogspot.com), em comemoração aos 10 anos de resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e liberdade.

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