sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

Ferreira Gullar


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Seiscentos e Sessenta e Seis

 

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…

Quando se vê, já é 6ª-feira…

Quando se vê, passaram 60 anos…

Agora, é tarde demais para ser reprovado…

E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,

eu nem olhava o relógio

seguia sempre, sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

(Mario Quintana )

domingo, 26 de setembro de 2021

Os justos e honestos sofrem

 

Muitos trabalhadores são justos, honestos, dedicados, flexíveis, compreensivos, comprometidos, solidários, honrados, e até bondosos. Eles passam anos de suas vidas, colaborando com o progresso e o desenvolvimento de (Instituições de Ensino, Empresas, Hospitais, Indústrias, Comércios...). Cumprem todas as obrigações profissionais e não recebem salários compatíveis com suas funções. Acima de tudo, abrem mão da família do lazer e da cultura. Tanto no setor público, quanto no setor privado, vários homens íntegros estão adoecendo e sofrendo: arbitrariedade, desigualdade, iniquidade, parcialidade, ilegalidade, desrespeito, tendenciosidade... A honra e o caráter não aceitam fraude, improbidade, falsificação, insinceridade, logro, má-fé, mentira, perfídia, traição. A boa reputação, a dignidade, a honestidade não compactuam com desonestidade, assédio e meias verdades. A moral, a generosidade, a gratidão nunca combinam com acordos espúrios, negociatas ilegais e maracutaias... Quem já sentiu o dissabor da injustiça? Infelizmente, ela atinge o homem honesto. Nos dias atuais, algum pai de família está chorando de tristeza. Ele foi vítima de uma daquelas surpresas desagradáveis no serviço. Ele perdeu o emprego? Ele foi traído por um colega de trabalho? A versão de um acontecimento é algo bastante relevante e deve ser explorado por várias concepções. Evitando com que a credibilidade do trabalhador fique “comprometida”, quando um determinado indivíduo expõe inadequadamente a respeito de situações que ocorreram ou foram comentadas por profissionais de uma empresa para outras pessoas, sobretudo, se nessa situação for a direção, a chefia imediata e até mesmo envolvendo outros cidadãos fora do ambiente de trabalho.  Muitos empregadores acreditam na fala de terceiros, a injustiça atinge o ápice e o meio profissional é deteriorado...  Em algumas situações, a Justiça do Brasil não ampara o colaborador honesto. Portanto, nunca podemos desistir. Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos (1801 a 1809) e o principal autor da declaração de independência dos Estados Unidos (04/07/1776), disse: “Quando a injustiça se torna a lei, a resistência passa a ser um dever”.

Sérgio Lopes (Jornalista, Professor e Especialista em TV, Cinema e Mídias Digitais)

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Clube da Esquina 2


Porque se chamava moço

Também se chamava estrada

Viagem de ventania

Nem lembra se olhou pra trás

Ao primeiro passo, aço, aço….

 

Porque se chamava homem

Também se chamavam sonhos

E sonhos não envelhecem

Em meio a tantos gases

lacrimogênios

Ficam calmos, calmos, calmos

 

E lá se vai mais um dia

 

E basta contar compasso

e basta contar consigo

Que a chama não tem pavio

De tudo se faz canção

E o coração

Na curva de um rio, rio…

 

E lá se vai mais um dia

 

E o Rio de asfalto e gente

Entorna pelas ladeiras

Entope o meio fio

Esquina mais de um milhão

Quero ver então a gente,

gente, gente…

Flávio Venturini

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Tecendo a Manhã.

"Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
 (a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão".
João Cabral de Melo Neto

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O trabalho análogo à escravidão no Brasil

 

O trabalho escravo durou mais de três séculos no nosso país. O Brasil foi a última nação ocidental a abolir a escravidão no mundo.  Contudo, o trabalho escravo ainda é marcante na atualidade... De acordo com informações recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT), estima que existam pelo menos 12,3 milhões de pessoas submetidas a trabalho forçado em todo o mundo, e no mínimo 1,3 milhão na América Latina. Estudos já identificaram 122 produtos fabricados com o uso de trabalho forçado ou infantil em 58 países diferentes.  Conforme a OIT, calculou em US$ 31,7 bilhões os lucros gerados pelo produto do trabalho escravo a cada ano, sendo que metade disso fica em países ricos, industrializados... Em consequência disso, milhões de pessoas vivem em circunstâncias humilhantes de trabalho. A  submissão por dívida, a ocupação coagida e até a jornada fatigante. Em síntese, Abraham Lincoln, o ex-presidente norte-americano  que libertou os  escravos dos Estados Unidos, disse: "Se a escravatura não é má, nada é mau”.

 Sérgio Lopes (Jornalista, Professor, Especialista em TV, Cinema e Mídias Digitais)

quinta-feira, 29 de julho de 2021

A Rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida.
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Vinícius de Moraes