O
escritor, jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues tinha uma brutal
incredulidade diante dos posicionamentos políticos. “Nada mais cretino e mais
cretinizante do que a paixão política”: uma paixão sem grandeza, que pode impedir
o homem de enxergar além de suas próprias convicções. A frase ganha relevância
no cenário político atual marcado pela crescente polarização e pelo acirramento
do debate público, a política passou, para muitos, a ocupar um lugar central na
vida cotidiana. Em alguns casos, deixou de ser apenas debate de ideias e passou
a assumir contornos de confronto permanente. Ter convicções não é o problema. A
democracia depende de cidadãos atentos à vida pública e dispostos a defender
suas ideias. O problema começa quando a paixão política se sobrepõe ao senso
crítico. O adversário vira inimigo, os fatos passam a ser filtrados conforme as
conveniências e a crítica é confundida com deslealdade. É aí que Nelson
Rodrigues permanece atual. Sua provocação não prega a indiferença, mas alerta
para os riscos de uma política dominada pela paixão e pela intolerância. Quando
o indivíduo só reconhece virtudes no próprio campo e defeitos no adversário, a
política deixa de ser debate e se transforma em cegueira. No Brasil de 2026, a
lucidez política passa pela capacidade de discordar sem perder o senso crítico.
No fim, fica a cena que Nelson Rodrigues saberia descrever como poucos: adultos
de joelhos diante do próprio partido, chamando fanatismo de convicção e
cegueira de lealdade. A paixão política faz o resto, dispensa o cérebro e ainda
exige aplauso.
Sérgio
Lopes Jornalista
Texto
publicado no Blog dos Letrados Desalienados
(https://blogdosletradosdesalienados.blogspot.com/2026/08/nelson-rodrigues-no-diva-da-politica.html), em comemoração aos 10 anos de
resistência crítica e literária do espaço criado pelo jornalista Sérgio Murilo
Rodrigues Lopes, dedicado à palavra como forma de consciência, sensibilidade e
liberdade.














